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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

colheres de mesa: tempo perdido

 aquele coelho cinza, de tecidos escuros e jóias no rosto, carregava consigo um tesouro que eu tanto escondi. em seus braços tinha o coração-pulsante e ele era meu. o coração-pulsante era meu. lembro de perder as veias que o seguravam aquela noite, não tinha tempo para voltar, eu não poderia voltar. precisei correr para longe daquelas batidas rítmicas, temia que minh'alma fosse levada se eu desse ouvido àquela música e eu não devia, mas fugi. esqueci que um dia aquele pulsar existiu, vivi com o vazio no peito sem me lembrar que bombeava meu sangue, estagnei. o que foi escondido é o que se escondeu, eu pensava, mas ver nas patas escuras o que eu deixei de me lembrar e escondi no fundo da memória, foi uma tempestade. não pensei que fosse possível sentir outra vez aquela ânsia em ter de volta o que um dia foi meu, estremeci sem saber se me aproximava. aquele coelho cinza, eu sabia quem era. seus olhos castanhos e pelugem cinza escura, as vestes pretas. um roedor que habitava minhas lembranças e sonhos, talvez fosse dele quem eu estivesse fugindo a princípio, deixando o coração-pulsante como uma maneira de escapar daquilo. era ele quem cantava os batimentos e ditava meus bombeamentos, o sangue que percorria por minhas orelhas era o mesmo que eu o ofereci debaixo da lua-cadente. ele o trouxe de volta, e por quê? tantas as noites que ignorei seus chamados, tantos os sonhos que afastei para não ver seu focinho outra vez e agora ele estava aqui, na minha frente. pensei que ao deixar para trás, eu não teria de encarar isso, achei que pudesse ignorar e esconder, não pude, ele me encontrou e trouxe de volta o que havia sido prometido entre nós, à luz da lua-cadente. eu não fugiria, não dessa vez. 

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

teoria de base?

 cama. céu. cruel. vinho. vestido. vaidade. barata. beira. bonita. tecido. tarefa. triste. contos maravilhosos infantis & domésticos. verbos aller e venir. uso do maiúsculo e minúsculo. pontuações erradas. letras erradas. provas rabiscadas. erros não vistos. eclipse perdido. sonhos estranhos. mensagens confusas. olhos pesados. cheiro de cigarro barato. lágrimas insistentes. fotos diárias. vício. quarto desarrumado. perfumes na metade. bandeira hasteada. caixa de música. bailarina rodando. baú amarelo. poeira. inseticida nas rachaduras. baratas nos pés. baratas nas mãos. meia suja. estante cheia. atividade feita. livro lido. provas respondidas com confiança. olhos fechados. aula de francês. últimas semanas. brownie. corrente de choque. quase morte. cola de tecido. adesivos. pijama de cetim. conversas noturnas. cansaço. exaustão. confusa. saudades de casa.

quarta-feira, 1 de julho de 2026

agatha renard

 uma das minhas primeiras leituras intensas foi, por acaso, uma indicação da marisa durante a aula. ela explicava sobre como um quadro exposto em museu havia mudado sua vida inteira e a forma como ela enxergava as coisas, foi como encarar um dos livros que a acompanhavam no dia a dia. uma composição única e interessante, diferente de tantas outras pinturas que estavam ali, o ambiente era arrumado de propósito para que tudo fizesse sentido e intensificasse a vivência. 

o quadro não era uma grande loucura, mas era um escândalo para quem olhasse. coberto por uma cortina vermelha, escondido no fundo de o corredor, ele escondia um segredo e uma privacidade tão íntima que era estranho se esgueirar só para ter um pequeno vislumbre. o corpo humano em seu estado mais cru, de uma forma tão natural.


a origem do mundo de gustave courbet é fantástica. o corpo feminino como um todo, com cores, dobras e pelos. o nome resignado é tão intenso quanto o que vemos, não sei dizer se ele ainda está escondido através de alguma cortina, mas o choque em vê-lo continua tão grande quanto se fosse visto sorrateiramente. é lindo e único.

o que eu quero dizer com tudo isso é que... eu não me lembrava desse quadro, muito menos de como ele estava exposto até eu me colocar em uma situação que desse um enorme estouro na minha mente. eu não entendia o porquê de colocarem o quadro como se fosse um tesouro, um choque tão humano.

isso é, até eu me esgueirar feito rato entre as pessoas para assistir a apresentação da agatha renard.

o lucas decidiu ir para esse pequeno rolê junino de um coletivo queer. fazia tanto tempo que eu falava para ele sobre querer ir em um desses, queria me sentir em casa de novo. dito e feito. eu só não esperava me deparar com uma das coisas mais linda do mundo inteiro diante dos meus olhos, de uma forma tão artística com uma experiência indescritível.

a agatha entrou carregada, com uma longa cauda de seria e cordas. era difícil dizer o que estava por vir, mas era intrigante. impossível de desviar os olhos. a arte drag sempre tem o peso de um lipsync carregado nas emoções, tanto mostrado pelo rosto quanto a forma como seu corpo se move e ela era, sem querer encher a boca para falar, intensa até nos minímos detalhes.

me senti como um enorme pervertido procurando espaços maiores entre as pessoas para olhar com ainda mais atenção quando vi seu corpo inteiro e nu. depois de muito tempo eu entendi o que coubert tentou fazer com seu quadro, eu estava diante de uma réplica moderna.


colheres de mesa: tempo perdido

 aquele coelho cinza, de tecidos escuros e jóias no rosto, carregava consigo um tesouro que eu tanto escondi. em seus braços tinha o coração...