quinta-feira, 17 de setembro de 2026

colheres de mesa: tempo perdido

 aquele coelho cinza, de tecidos escuros e jóias no rosto, carregava consigo um tesouro que eu tanto escondi. em seus braços tinha o coração-pulsante e ele era meu. o coração-pulsante era meu. lembro de perder as veias que o seguravam aquela noite, não tinha tempo para voltar, eu não poderia voltar. precisei correr para longe daquelas batidas rítmicas, temia que minh'alma fosse levada se eu desse ouvido àquela música e eu não devia, mas fugi. esqueci que um dia aquele pulsar existiu, vivi com o vazio no peito sem me lembrar que bombeava meu sangue, estagnei. o que foi escondido é o que se escondeu, eu pensava, mas ver nas patas escuras o que eu deixei de me lembrar e escondi no fundo da memória, foi uma tempestade. não pensei que fosse possível sentir outra vez aquela ânsia em ter de volta o que um dia foi meu, estremeci sem saber se me aproximava. aquele coelho cinza, eu sabia quem era. seus olhos castanhos e pelugem cinza escura, as vestes pretas. um roedor que habitava minhas lembranças e sonhos, talvez fosse dele quem eu estivesse fugindo a princípio, deixando o coração-pulsante como uma maneira de escapar daquilo. era ele quem cantava os batimentos e ditava meus bombeamentos, o sangue que percorria por minhas orelhas era o mesmo que eu o ofereci debaixo da lua-cadente. ele o trouxe de volta, e por quê? tantas as noites que ignorei seus chamados, tantos os sonhos que afastei para não ver seu focinho outra vez e agora ele estava aqui, na minha frente. pensei que ao deixar para trás, eu não teria de encarar isso, achei que pudesse ignorar e esconder, não pude, ele me encontrou e trouxe de volta o que havia sido prometido entre nós, à luz da lua-cadente. eu não fugiria, não dessa vez. 

terça-feira, 15 de setembro de 2026

cartas para l: paranoia e visões

 cartas para l: paranoia e visões
nessas palavras trocadas entre mulheres que até então permaneciam mudas, algo havia tomado forma que permaneceria parte da tradição feminista: uma certa relação íntima e familiar com a esfera do perceptível, um ir e vir entre concretude e abstração que trincava a superfície lisa dos discursos que legitimam o poder. - fc, sonograma de uma potencialidade.
a sociedade nos adoeceu, vamos dar um golpe mortal na sociedade! - sozialistisches patientenkollektiv (spk)

 i.

querida l,

dividimos a cama, lemos juntos no café. debaixo da mesa você aperta minha mão quando m diz algo sobre dar a outra face. tomo como uma promessa ou um pacto, um sinal de que teremos nossos próprios segredos. sentamos um ao lado do outro no chão no primeiro encontro e vejo o quanto você gosta quando riem de suas piadas. vejo sua felicidade se desdobrando como papel amassado.

querida l,

não sei porque deixou b te tratar dessa forma. eu sei que ele odeia mulheres. sei que ele trai a esposa, e tira a aliança quando vai aos bares, e sei que tentou dormir com uma de suas alunas na minha festa. sei que ele queria dormir comigo naquela noite na cidade, quando me pediu no seu hotel.

disse que seus poemas eram medíocres, e você chorou, mas não sei porque você ainda o respeita.

querida l,

você fica na minha nova casa quando não tem trabalho no dia seguinte. saímos para comer burritos e filmes à meia-noite. ou eu cozinho e você lava a louça; você diz por que se dar ao trabalho de tentar cozinhar quando é só mais uma coisa em que você vai ser ruim?

sei que pensa em mim como alguém normal demais, alguém para quem as coisas se resolvem fácil demais. você tem o relacionamento perfeito, você diz, mas raramente você pergunta como estou, e raramente toco no assunto.

querida l,

estou aprendendo a segurar a língua quando você briga com a m porque sempre se reconciliam. ele te liga cinco ou seis vezes por dia ás vezes, ele precisa de algo de você. ele sabe que algo está acontecendo, pode ver que tem coisas que você fala comigo que você não conta. ele sempre quer ouvir sobre os encontros mesmo sabendo que é melhor não perguntar diretamente.

querida l,

eu poderia estar imaginando, mas você pareceu arredia no último encontro. você pintou o cabelo de mais escuro e eu te complementei no estilo, mas você parecia insegura. você disse que largaria o cigarro.

não entendo porque você saiu de fininho cedo, com uma despedida rápida, ao invés de passar a noite como havíamos planejado. consegui uma carona de última hora de volta para casa, você disse, e é melhor eu pagar. mas eu poderia ter levado você amanhã, eu disse.

querida l,

você parou de vir aos nossos encontros. eu sei, seu carro quebrou e seu horário de trabalho mudou, além disso, você sempre foi péssima em planejar qualquer coisa com antecedência.

fico imaginando que tipo de segredos você guarda, porque segredos você sempre guardou, por uma questão de aparências, e principalmente para evitar uma briga. eu acho que você está tentando se afastar de todas nós, as pessoas que reivindicam pedaços de você. você queria que a gente simplesmente se desse bem, parasse de chegar em você com ressentimentos e cobranças, parasse de te pedir para tomar partido.

querida l,

m é amigo de j e j é amigo de o e o é amigo de b e h. m e j estão escrevendo algo juntos, e m acabou de entrar para o grupo literário de j, que também conta com n e r. a está publicando uma peça na antologia de g, está em contato com o famoso p, e está lendo no fórum com o e j.

percebo porque escolheu o m, porque precisa dele, o que ele tem que não temos. eles têm tudo, nós não temos nada sem eles. sei porque parou de vir aos encontros.

ii.

ser feminista é ser paranoica. todos nos dizem que estamos lendo demais as coisas, que o que estamos vendo não está lá. há certos registros emocionais com os quais nos familiarizamos: cetismo, desconfiança, defensividade.

nossas reações nunca são proporcionais às ações que as precederam.

de um lado, o abstrato. homens estupram mulheres. ora a configuração é outra, ora a violência de gênero assume outras formas, mas o padrão permanece: homens estupram mulheres, mais e mais e mais e mais e mais.

por outro lado, o concreto. ele me estuprou. ele estava muito bêbado, e eu estava muito bêbada. ele deixou uma marca na minha coxa. sei que ele é enrolado, sei que algo muito ruim aconteceu com ele quando era criança, mas me disse que faz terapia.

nossa raiva é vivida pelos outros como desinteressante, como formuláica. Às vezes também nós ficamos entediados com nossa performance de indignação. eu, objeto, digo de novo e de novo, e minha boca dói.

mulher: aquela a quem se pede que resolva uma contradição irresolvível, ou a quem se coloca o ônus de ocultar sua irresolvebilidade, ou aquela a quem se atribui a culpa por sua falha em resolvê-la ou em escondê-la.

é este o mundo que você quer?, os outros perguntam. um mundo de julgamento, normas éticas e punição? não vê que isso não resolve nada?

a intensidade da emoção que expressamos — que parece tão excessiva a ponto de ser nomeada histérica, ou insincera — é resultado dessa contradição.

sabemos a fonte da radiação, sabemos onde ocorreu o vazamento. podemos medir os níveis no local, mas quanto mais longe chegamos do local, mais difusa e dispersa a radiação se torna. não sabemos como a força penetra formas de vida específicas, como altera sua composição ao longo do tempo, como contribui para uma morte lenta anos depois. sabemos que há uma relação entre a radiação e os destinos particulares daqueles expostos, — podemos detectar taxas anormais de doença — mas não podemos rastreá-la diretamente. a morte e a doença dispersas no tempo e no espaço aparecem como destinos puramente individuais.

é assim que as relações de gênero aparecem. irradiando, condensando, adoecendo.

não, esse não é o mundo que queremos.

mas não nos é possível evitar certos registros emocionais, certas posturas mundanas. a alternativa à raiva é o desespero, são tons de auto-obliteração sombrios demais para suportar.

não é que tenhamos abordado o problema de forma incorreta, mas que não existe uma maneira correta de tratar o problema. é a relação social que nos produz como mulheres com problemas, e como homens que criam problemas, esse é o problema.

viver como mulher é viver as consequências de uma contradição entre o privado e o social, o concreto e o abstrato, a especificidade de uma vida individual e o padrão geral que constitui a vida de um grupo.

abraçar os gestos da feminista é viver como uma paranoica, na medida em que as consequências sociais de perceber como real aquilo que toda a sociedade nega são as mesmas quer essas percepções seja ou não verdadeiras. a contradição se torna um segredo pessoal, algo que devemos fingir não perceber quando na presença de outro. as outros não há contradição. as reações individuais são proporcionais às ações que as precederam.

não há coisa, nenhum objeto chamado "a radiação", que possamos atacar. há apenas as formas de vida que foram expostas a ele, cujas células foram alteradas invisivelmente, cujos corpos foram indelevelmente marcados de maneiras que se desenrolam misteriosamente ao longo do tempo, casa uma distorcida à sua maneira.

não há coisa chamada "homens" que possamos atacar. há apenas homens individuais, há apenas instâncias individuais da violência, há apenas experiências específicas que acumulamos em todas as nossas vidas, cada uma única, mas de certa forma semelhante, como poeira em um peitoril, sedimentando lentamente.

espancamentos, processos de responsabilização, banimento, perdão: são formas diferentes que milieus tentam lidar com a violência de gênero. as surras não funcionam, os processos de prestação de contas não funcionam, o banimento não funciona, o perdão não funciona.

o fato de que às vezes uma mulher escolhe uma resposta violenta sugere que de todas as escolhas impossíveis dadas a ela, ela optou por aquela que expressa o grau real de hostilidade no nível do grupo social —, ou seja, a hostilidade das mulheres como um grupo vem de encontro com a dominação dos homens como um grupo.

o problema para as mulheres não é apenas descobrir o que é político no pessoal e o pessoal no político; é encontrar uma maneira de viver dentro de uma contradição na qual experimentamos simultaneamente a natureza concreta e abstrata das relações de gênero. essa maneira de viver é sempre insatisfatória, e é esse fato — o fato de nossa própria insatisfação, da impossibilidade de encaixar nossa vida dentro dos paradigmas que nos são dados por eles — que forma o material para nossa resistência.

em algum momento começamos a procurar outras sofrendo com a nossa condição. outros com quem nossas alucinações particulares podem ser reformulados como sociais, e com quem a impossibilidade de nossa posição forma o alicerce para uma espécie de compartilhamento entre as insanas.

é difícil confiar uma na outra.

em nossas terríveis comunidades, quando ficamos uma do lado da oura perdemos o acesso a certas pessoas, a certos homens e às pessoas com quem esses homens têm acesso. quanto mais laços cortamos menos importantes ficamos e mais laços perdemos. as linhas que correm entre nós, conectando todos os homens e os não-homens juntos, formam uma teia de lealdades e antagonismos, e começamos a aprender que colocar um ao outro em primeiro lugar tem consequências. brutalmente, aprendemos que, ao nos livrarmos de certos laços, nos tornaremos indesejáveis para os homens, e que isso nos tornará total e finamente invisíveis.

perderemos muitas de nossas amizades com mulheres.

não vão querer ser invisíveis, ou indesejáveis. eles verão como olhamos através dos olhos dos homens — feio, histérico, chato — e elas serão repelidas. elas vão parar de vir aos nossos encontros.

elas nos odiarão muito mais do que odeiam os homens; devemos estar prontas para isso.

iii.

querida l,

quando eu era uma garota, sonhava com uma paisagem que nunca tinha visto, e no sonho eu me movia através dela da esquerda para a direita, enquanto ela mudava de penhascos do deserto para terra rachada para um lago negro com uma ilha. o lago estava silencioso e a água estava tão quieta que parecia sólida. eu vi esse lago dentro de você e houve momentos em que seu silêncio me assustou e me manteve de volta. sempre tive medo de me aproximar das mulheres porque elas enxergam demais. elas podem ver a radiação e eu tive medo que elas vissem o silêncio dentro de mim, uma poça preta de água derramando sobre um lábio de cimento. os homens podem ser mais fáceis, sinto-me menos perscrutada, menos esfregada como pedra-pomes na pele crua. queria que fôssemos como duas novas amigas em recuperação, hesitativas, lidando uma com a outra gentilmente. queria ser compreendida e ser reconhecida sem ser nomeada selvagem e brilhante. as emoções se acobertando por dentro das paredes do meu corpo, ecos reverberando como sonar, o morcego do meu medo pressente tudo sem ver. asas se espalham dentro de mim, queria que você me visse e me conhecesse, mas não deu certo assim.

sexta-feira, 11 de setembro de 2026

faço de mais e respiro de menos

um pouco engraçado como escrever para o blog tem sido mais fácil ultimamente, tenho encontrado aqui uma forma de colocar em ordem tudo o que tem se passado pela minha cabeça ao mesmo tempo que consigo organizar ainda mais projetos incríveis. alguma coisa dentro de mim acendeu nos últimos dias, talvez seja pela quantidade exorbitante de vitaminas que tenho tomado por estar dentro de uma pira para crescer o cabelo, ou talvez a alegria em ver como minhas coisas estão crescendo gradativamente, pode ser também as boas noites de sono que tenho tido e como acordar cedo, mesmo que brevemente, me faça olhar para o céu um pouco mais com calma.

tem dois dias que a lucinda castrou, nesses dois dias ela não saiu de casa e procura sempre ficar perto de mim, ou do meu vô. tem sido tão gostoso poder estudar na mesa com ela no colo, ou ver ela subindo em cima dos meus papéis sem se preocupar em estar atrapalhando, parece que me alegra. esses dias me olhei no espelho, reparei o quanto envelheci e não tenho mais a mesma aparência de criança que eu tinha alguns anos atrás, eu nem notei como o tempo foi passando e como estou ficado adulta e verdade. meu cabelo tem crescido de novo, a queda parece que está diminuindo, o estresse tem diminuído. eu chorei bastante esses dias, coloquei para fora tantas angústias e medos durante a madrugada, parece que lavei tantas coisas dentro de mim. 

por isso, digo que algo acendeu em mim. outra vez enxergo um fogo se alastrando por dentro do meu corpo até chegar em meu cérebro, então acabei acumulando (sem perceber) feitos incríveis. não pensei ainda em como vou arcar com eles, mas está feito. coisas até de mais, eu deveria refrescar a cabeça nesses últimos dias de recesso da faculdade, colocar em dia as matérias e dormir um pouco mais do que eu não consigo durante a semana com aulas normais, mas eu só pensei em criar e criar e criar. encerrei a semana com um tanto de coisas nas costas que eu nem imaginava que era capaz, tantos elogios foram feitos e o que mais me alegra: foi tudo feito pelas minhas mãos! bom, quase tudo. algumas coisas tive o auxílio de outros artistas, esses que também usaram as mãos. posso encher o peito e falar com orgulho tudo o que fiz ao longo desse ano e ainda tenho muito mais o que viver, me sinto tão ansiosa e animada para o que me aguarda. querer fazer as coisas é o que tem me motivado acordar, o conforto de estar feliz e encontrando meu lar. 

não tenho tido tempo para respirar, eu durmo pensando no que mais eu poderia fazer, então levanto correndo para fazer se tornar realidade. foi assim que fiz duas zines, sonhei com algo e precisei abrir os olhos com a pura ansiedade de alguém que esperava por isso há anos. tem sido divertido e encantador, descobrir que posso colocar imagens e cores ao lado de textos para encontrar uma identidade única! tenho feito mais coisas do que consigo contar nos dedos e espero poder fazer muito além, não quero respirar, nem fechar os olhos.

domingo, 6 de setembro de 2026

músicas clássicas que estou viciada (começo de setembro)

tem um tempo que comecei a ouvir música clássica como uma forma de voltar ao mundo dos sonhos e me encontrar na fantasia, no romance que eu tenho dentro de mim. talvez por isso eu esteja aqui e agora escrevendo isso para listar algumas das músicas que estou ouvindo em repetição sem fim.





momentaneamente encantada pelo tchaikovsky, e por que não estaria? que encantador é ouvir os contos de fadas como eles realmente soam, coloquei o vídeo do balé porque nada mais delicado e sonhador quanto. estou terrivelmente apaixonada por isso, passo noites ouvindo e sonhando acordada com a possibilidade de conseguir chegar perto desse mesmo som com meu tecladinho velho. que lindo seria poder tocar uma dessas obras em um piano acústico de calda longa, penso em começar a fazer aulas de música e, talvez eu devesse mesmo! é um choque com a minha vontade de ser baixista, poder tocar os sons mais extremos, não sei como conciliar os dois, mas tenho tido tantos sonhos bons. essas duas obras em particular são as que mais circulam meus ouvidos!

002: sem titulo

(estou experimentando essa nova formatação de texto para ver como se comportaria no blog, assim como fazer postagens em formato-diário também tem sido outro tipo de teste para ver como andariam as coisas por aqui, a verdade é que eu nunca sei o que estou fazendo de verdade até que tudo esteja pronto, sinto que estou apenas seguindo sentimentos confusos, ideias estranhas e vontades que crescem de dentro do meu âmago até brotarem por todo os buracos.)


a verdade é que estou infeliz. o ato de viver não muda esse fato e não existe, de fato, nada que mude a depressão dentro de mim, então estou encarando a mim mesmo no vazio constantemente, sem nem saber o que estou fazendo. acho que estou andando por aí de modo automático, pensando em maneiras diferentes de me fazer ver cores no mundo outra vez, mas eu não consigo. meus olhos só enxergam o vazio, o escuro e o nada. é tão estranho que nada consiga me alegrar quando eu estive tão animado com o futuro, pensando e planejando criar meu universo inteiro outra vez, mas para ser sincero, eu estou assustado. não consigo mover meu corpo, não tenho coragem de encarar o céu. parece que estou preso, que meus pés estão amarrados no chão e meus braços sem força alguma para conseguir se mover. toda aquela paixão, toda aquela faísca, desapareceu diante dos meus olhos sem que eu pudesse fazer qualquer coisa para impedir esse desastre. estou apagado, fui apagado por mim mesmo e não há nada que concerte meus erros, eu não deveria ter apagado uma história inteira, memórias e vidas vividas. tem dias que a necessidade de se esconder consome minha alma desesperadamente, arrancando pedacinho por pedacinho de mim, sem deixar sobrar nada e eu, como um covarde, deixo que me devore. aquela noite, aquela maldita noite, que eu achei ter sido amado, não era real e nenhum desses dias que seguiram foram verdadeiros, eu sei da mais pura verdade, estou olhando para ela agora! o silêncio é apenas um meio de ocultar o que está acontecendo entre os mundos, as estrelas não se colidem mais há alguns anos e agora estou vendo a pele se tornando cada vez mais fina, as medidas diminuindo e meu próprio rosto congelando. não envelheço, mas fico cada dia mais perto da morte. gostaria de amarrar explosivos em meu corpo, assistir cada carne e gota de sangue sendo atirados para todos os lados, a parede branca manchada em um vermelho carmesim vivo. o que seria de mim? o que sou agora? essas perguntas não tem resposta, só escrevo vômitos incessantes para inundar os buracos que eu mesmo abri nesse quarto, o sol não se põe, uma luz insistente que invade meu quarto cegando meus olhos doloridos com os sonhos desesperados de noites nunca dormidas tão ocupadas com os desejos escondidos de quem não pode nem suspirar na janela com a paixão destruída. quanto mais escrevo, menos entendo de onde cresce essa angústia. parece que estou me descascando por inteiro até sobrar apenas a melancolia, queria escrever vivências loucas que estou tendo por aqui, mas não tenho nada acontecendo e é tudo tão estranho, eu pensei que sairia mais de casa, exploraria os cantos dessa cidade, andaria pelos trilhos tão usados... não faço nada disso, fico o dia inteiro criando teias por rolar na cama como se estivesse fazendo um casulo para nascer de mim uma linda borboleta, quer dizer, acho que não vai nascer uma, tenho quase certeza que de mim só terei desgraças. hoje faz um ano que comecei a ter um blog e pensar em criar coisas envolvendo a cena alternativa, mas não me sinto animado com isso, sem compaixão com a minha própria identidade, aquela pessoa que tanto meu animou agora é a que me tira o gosto de fazer as coisas, não tenho coragem de dizer o que sinto olhando nos olhos que me sinto desesperançoso quanto o futuro, muito menos contente com o presente, parece que estou preso num espiral de tédio e o fim é inexistente, gostaria de encontrar a faísca de novo e saber que dentro disso existe alguma coisa ainda que não a rotina de sempre. estou cansado de repetir as mesmas coisas, de não ter algo acontecendo como antes, parece que estou parado. não gosto de estar parado. quero movimentar, fazer coisas! preciso cuidar de mim, preciso buscar dentro de mim mesmo o fogo ardente que eu achava estar em outras pessoas, não posso contar sempre com o outro para me colocar para cima, tenho de segurar as minhas próprias mão e fazer eu mesmo acontecer. estou sempre esperando algo, buscando alguém, querendo opiniões de terceiros, quando tudo o que eu mais precisava está dentro de mim. meus olhos estavam fechados, colados com o meu sangue, me resta limpá-los para que eu possa enxergar outra vez. um caminho se forma em minha frente, tenho que seguir adiante. o que está me segurando? quem está me segurando?

sábado, 5 de setembro de 2026

contra o formato-casal

(a segunda postagem do volume um do lies journal, eu não chamaria isso de um ensaio. a leitura é menos densa e um pouco mais rápida e fluída que o primeiro ensaio escrito, sigo dizendo que é um coletivo queer-feminista baseado nas vivências estado-unidenses.)


clémence x clementine e associados da gangue veneno feminino infinito
contra o formato-casal
'chega de mães, mulheres e meninas, vamos destruir as famílias!' fosse um convite para o gesto de quebrar as correntes esperadas dos acontecimentos, para liberar as potencialidades comprimidas. foi um golpe nos casos amorosos fodidos, para prostituição ordinária. foi um chamado à superação do casal como unidade elementar na gestão da alienação - tiqqun., how to?

os fluxos libidinais cortam o mundo social. as relações amorosas e sexuais não existem em algum domínio gravado com segurança do resto da sociedade. pelo contrário, eles são elementos constituintes e quase todos os aspectos da vida social. o desejo flui e circula entre lugares de emprego, debates intelectuais, organização política, círculos artísticos, playgrounds e cemitérios. o paciente idoso agarra no seio de uma enfermeira curvada sobre ele. um funcionário do governo despe sua funcionária recém contratada até sua calcinha estampada de onça durante uma reunião importante no escritório dele. o homem encarcerado encosta sua mão no vidro da cabine de visita, tentando tocar sua esposa após vinte anos da separação corporal deles. esses fluxos de desejo libidinal opera dentro e entre mecanismos sociais mais amplos, de tal forma que ajudam a animar a dinâmica da vida econômica e política. muitas vezes em um lócus da política, o desejo permeia no terreno tão chamado de "público'.

o patriarcado submete incessantemente esses fluxos de desejo a um sistema de organização, uma lógica que subverte os fluxos desejantes contra si mesmos. essa canalização e organização do sexo e das relações amorosas vou me referir como a lógica do casal — aquilo que afunila, simplifica, e reduz o desejo amoroso às necessidades do patriarcado dentro do modo de produção capitalista. essa lógica parte do pressuposto de que as mulheres possuem apenas um único lugar para a realização de seus desejos sociais e sexuais, sendo esse um relacionamento amoroso com um homem. o casal funciona como o limiar, a taxa de admissão, a chave de ouro que permite à mulher participar do mundo social. o casal promete que, ao entrar em seu domínio, não sofrerá mais com a alienação, com o isolamento, com o tédio, com a falta de raízes. o casal concede à mulher personalidade e visibilidade social. ela obtém um título, uma temporalidade, um espaço através do casal. o casamento consagra essa lógica e sua perpetuação da forma específica assumida pelo patriarcado sob o capitalismo.

a ação e o discurso dentro das relações sociais patriarcais emergem de um grupo de homens interessados uns nos outros. nos círculos intelectuais, políticos ou artísticos, um quadro de homens frequentemente monopoliza a capacidade de participar da produção de eventos ou ideias, o que não quer dizer que eles façam algo particularmente interessante. o patriarcado tem sistematicamente excluído as mulheres da ação e do discurso, consignando-as como classe para executar o trabalho não remunerado de reprodução social. em vez de um conceito essencialista, a categoria da mulher decorre de um modo de exploração de gênero e relega certos tipos de trabalho a uma esfera privada e não remunerada. enquanto as mulheres trabalham ocupadas em empregos exaustivos, além de realizar o trabalho doméstico, os homens criam a esfera da vida pública, a fim de se isolarem de chegar a um acordo com sua banalidade e superficialidade.

os homens concedem às mulheres acesso a ação e o discurso ao desenvolver relações sexuais com homens deste círculo. mulheres desacopladas, aquelas cachorras soltas, permanecem na periferia, sempre à distância do espaço onde se desenrolam debates, projetos e eventos. o casal atua como uma forma social que exige que a mulher, para participar de qualquer prática ou domínio que deseje, se prende ao homem pelo mecanismo do casal. o formato-casal muitas vezes constitui o único dispositivo que protege a mulher da misoginia de um grupo de homens. "quem é? oh, acho que é a namorada do zach, ex do ben." as mulheres tornam-se conhecidas por suas relações com os homens, não por suas contribuições para a vida intelectual ou política. a vida das mulheres é reduzida aos seus papéis à medida que a esposa de x ou a namorada de j não são poetisas, teóricas, ou revolucionárias por conta própria.

as mulheres escolhem diferentes estratégias diante das relações sociais patriarcais e da lógica do casal. uma mulher que vai atrás de um homem com poder em um certo meio. uma mulher que sempre precisa e um homem por perto e que vai pagar o que puder. uma mulher que se deleita com a confiança de ser a namorada do fulano. uma mulher que se senta alegremente no "sofá de namorada" durante o treino da banda. uma mulher que fica deprimida durante os períodos entre namorados. uma mulher que vê o homem que ela está como um espelho da sua própria destreza. uma mulher que espera por um homem impressionando o suficiente para ultrapassá-la. uma mulher que o trabalho intelectual é monopolizado por ficar acordada até tarde escrevendo e-mails desesperado para o namorado em vez de escrever seus próprios poemas, teorias, ou planos arquitéticos.

a lógica de casais intermeia a relação da mulher consigo mesma e sua relação com outras mulheres. na produção de si como mulher, ela continua sempre alerta para a necessidade de se fazer desejável, de se fazer valiosa para o desejo de um homem, para se encaixar no amor do homem. no "vá em frente, garota! você merece!" a dimensão da subjetivação feminina contemporânea tem codificado a servidão individual da mulher como sua auto-realização. as ondas do feminismo pós anos 50 reconfiguraram a posição das mulheres no capitalismo e em relação aos homens sem necessariamente torná-lo menos opressivo. a pseudo-capacitação das mulheres para dormir por aí, usar batom e comprar chocolate para si mesmas, se quiserem, não equivale a nenhuma mudança significativa em sua exploração estrutural. a femme fatale, a dançarina burlesca, a mulher executiva tem um homem, ou um homem a tem? uma mulher pode internalizar completamente as demandas do casal, reproduzindo-se como atraente, desejada e procurada — traços que devem ser produzidos — mesmo quando se esbraveja contra o macho predador sexual. a lógica do casal fortaleceu a relação direta da solteira com a mercadoria, o imperativo de produzir-se como mercadoria. assim como na esfera da circulação — onde supostamente compradores e vendedores trocam equivalentes — a mulher solteira troca horas de preparao, tonificação e depenação pela capacidade de ser comprada por um homem no mercado de carne. o casal intermeia as relações entre as mulheres na medida em que interagem para não aprofundar sua conexão uma com a outra, mas para fofocar sobe meninos, para processar suas relações com homens, para negociar tecnologias de feminilidade pelas quais elas podem melhorar seu status com os homens. dessa forma, o formato-casal assombra as mulheres quando sozinhas, ou com outras mulheres.

não se deve dissociar o desejo de relação sexual com um homem do baralho empilhado do patriarcado. quem são esses namorados? o que uma mulher acha que ter um vai dar a ela? em suma, tudo. o casal se posiciona pelo próprio desejo, depois de consagrado, afunilado e reduzido a um único objeto pelo patriarcado. em vez de brotar anseios por negação ou superação, as jovens planejam seus casamentos enquanto ainda estão no jardim de infância. por que uma mulher se vende por uma punheta? ela se entrega ao "casal" na esperança de mitigar sua alienação e aumentar seu senso de "segurança", da mesma forma que um cidadão se entrega a um estado repressivo em que confia para mantê-lo seguro. embora talvez não seja visível no início, o casal alienará e se isolará ainda mais. ela terá que responder ao marido, além do chefe, entrando em uma relação de hiper-exploração. a camarada valerie solanas atende a função de atomizadora de casal: "nossa sociedade não é uma comunidade, mas meramente uma coleção de unidades familiares isoladas. desesperadamente inseguro, temendo que sua mulher o deixe se ela for exposta a outros homens ou a qualquer coisa remotamente parecida com a vida, o homem procura isolá-la de outros homens e do pouco de civilização que existe, então ele muda para os subúrbios, uma coleção de casais ensimesmados e seus filhos." quanto uma mulher pode perdoar? quanto ela deixa deslizar? até quando ela tolera que as coisas esteja mal, podres e fodidas? ela evita romper-se a grandes custos porque desobedecer à logica do casal impedirá seu acesso aos mecanismos precisos que supostamente a salvam dessa existência desdenhosa. a aparência de cuidado e uma promessa de solidariedade futura a convencem a permanecer em circunstâncias insatisfatórias e patéticas.

o casal funciona tanto como o problema quanto como sua solução. se não for esse, ela só precisa de outro namorado, um que a trate melhor. uma mulher pode sentir a náusea da ambivalência, de estar presa entre a obsessão pelo poder fálico e a repulsa dele. ela não sabe o que é maior, a melancolia do casal ou a melancolia de denunciá-la como forma social. a maioria opta pela tristeza do casal em vez da alienação de ser cortado de suas mãos. o capital dá um ombro a cada curva, sugerindo que você assista a uma comédia romântica com suas namoradas quando estiver de coração partido ou fornecendo maneiras infinitas de personalizar seu vestido de noiva. semelhante ao quadro da política eleitoral que limita o escopo da crítica ás pessoas erradas que estão no cargo, a forma de casal atribui os problemas das mulheres ao namoro com o homem errado e não ao próprio casal. então, ela ficar investida na ideia do amor romântico como salvação, como princípio orientador contra o isolamento e em direção à realização, ela permanece ligada à forma de casal.

como outra faceta do casal como solução, os discursos em torno das medidas de austeridade e de reestruturação neoliberal enquadram o casal como um remédio para a pobreza. lê-se contos de jovens que se deslocam entre a pobreza e a prisão como resultado da maternidade solteira, especialmente pais ausentes, como se a restituição do casal pudesse remediar a pobreza e o racismo estrutural produzido pela capitalismo. os burocratas do estado dizem às mulheres que o casal e a família que "ele" ancora substituíram os programas de assistência social: não precisa de ajuda com creches ou vale-refeição, precisa de um homem! a saída mais certa da pobreza é casar! embora muitas mulheres nunca possam ter acesso ao emprego, aquelas que trabalham por um salário enfrentam uma discrepância de gênero nos ganhos, provavelmente forçando-as a confiar nos salários masculinos para sustentar seus filhos. esses mecanismos econômicos preservam a veemência do formato-casal como uma armadilha para as mulheres dentro do capitalismo, que mascara o trabalho não remunerado como atos de amor e cuidado.

a lógica do casal substituiu a lógica de deus. ligue o rádio e pode-se ouvir inumeráveis relatos da posição absoluta do casal: "você é a única coisa que importa, não posso continuar vivendo sem você — ou mais equivocadamente — cada respiração sua/e cada movimento seu/estarei de olho em você." a maioria das canções de amor contém ou começam com "eu" mas o "eu" é de fato todos ajoelhados sob a forma social generalizada do casal. o olhar masculino substituiu o olhar divino. como artaud tem nos pedidos 'por um fim no julgamento de deus' (por en finir avec le jugement de dieu), façamos nós com o julgamento dos homens.

analisando essas dinâmicas, pode-se perguntar se as mulheres podem optar por sair do casal, talvez através de uma exploração de assuntos promíscuos. essa opção pode não ir longe o suficiente. não confunda poliamor com paradigma pós-casal. o poliamor é uma multiplicação da lógica do casal, não sua destruição. sexo casal, parceiros primários, disponibilidade física e emocional e outros distinções contém relações amorosas dentro da negociação do casal. o poliamor abre formações semelhantes a casais sem compromisso formal do casal, expandindo sua territorialidade e tentáculos semelhantes a polvos que sugam o desejo para a lógica do casal. as relações poliamorosas ou promíscuas funcionam como estratégias para mulheres navegarem nas relações sociais patriarcais, em vez de rompê-las ou negá-las.

a lógica do casal penetra tanto nas relações queer quanto nas héteros. a homonormatividade e assimilação gay formaram relacionamentos queer na forma de acoplamento direto. em vez de uma subversão das relações sociais heterossexuais, os homossexuais assmilacionistas e liberais lutaram pelo direito de se encaixar na lógica do casal — para se casar, usar um vestido de noiva, criar núcleos familiares capazes de proteger as relações de propriedade. os homossexuais perpetuam as normas e a falocracia heterossexuais através de categorizações e encenações, que codificam ainda mais os desejos e constituem o sexo dentro da lógica da centralidade fálica e da autoridade. casais do mesmo sexo não escapam nem da territorialidade imposta ao desejo nem do reforço e fidelidade do casal às relações sociais repressoras.

desmontar a lógica do casal não indica desgosto pelo amor, mas sim uma crítica ao direcionamento do amor para um objeto específico. deve-se contextualizar o formato-casal dentro do patriarcado, pois o chamado "amor" chega até nós pelo aparato do gênero. denunciar o casal não significa fugir da vertigem, das cartas de amor escritas em minúsculas cursivas com canetas de pena, ou da sensação da calçada ser um trampolim. em vez disso, criticar o casal envolve uma análise da maneira como o patriarcado recuperou o desejo feminino de solidariedade, de intimidade, de excitação, de negação, de evento em uma consolidação do poder fálico e da acumulação de capital.

quem não chegaria a essa conclusão: o patriarcado e o capitalismo frustram qualquer possibilidade de amar de forma a se libertar de lógica do casal ou da própria opressão. libertar o amor passa necessariamente pela abolição do patriarcado e do capitalismo. não se pode optar por entrar ou sair dessas relações estruturais, e a luta contra elas será um projeto coletivo, histórico.

nesse mundo patético e natimorto, temos sim sentimentos. às vezes olhamos para alguém e achamos que estamos apaixonados por ela. devemos esmagar a ilusão de que o romance é ou será uma avenida para a libertação. devemos nos livrar dos relacionamentos românticos como meios através dos quais podemos acessar um mundo melhor do que este. ao perceber que suas economias e convenções são parte integrante do desastre contínuo de nossas vidas, deixaremos para trás todos os casais até então existentes. novas, e talvez desconhecidas, formas de organização feminista apresentam a única fronteira possível para o amor.

para aqueles que aceitaram a forma de casal como uma farsa, como incapaz de permitir a circulação do desejo, da guerra e da brincadeira, fazemos as seguintes recomendações: não se engane, não estamos defendendo uma resposta subcultural, individualista, lifestylista ou voluntarista ao formato-casal, nem culpamos as mulheres que devem permanecer nos casais por sua sobrevivência material. estamos, no entando, comprometidos com a práxis. essas podem ser algumas das formas que a luta contra o casal assumirá, coincidindo com um movimento mais amplo em direção à abolição de nós mesmas como mulheres.

derrame sangue menstrual em vestidos de noiva. mande tigres para festas de noivado.

fazer amor. qualquer coisa pode ser sexo. o corpo é rico e variado em suas partes e sensações. tantos êxtases ainda não foram sentidos. afaste-se da organização genital da "sexualidade".

casal-busto, que solanas descreve: "ESCÓRIA: irá o casal-busto — barcaça em casais mistos (homem-mulher), onde quer que estejam, e bustear eles para cima?"

lute a partir do aperto dos braços do casal (ou seja, amar a cadeia). saia pela porta da frente e se prenda em uma multidão. ande com plantas e animais. vá para o espaço. substitua a díade, o par, as duas metades que fazem um todo com terceiro, quarto. termos não-necessariamente-humanos: "os três e aquela matilha de lobos e aquele arbusto! a comuna! a neve! as xícaras de chá! as facas! as criaturas!"

abra explosivamente os conteúdos da amante: "eu não quis te beijar por assim dizer. eu queria tudo o que você era de entrada: o cheiro de cigarros, as portas da cidade abrindo para mim, samosas, a casa da sua tia no interior, a sensação de que eu poderia andar por aí com meus olhos fechados e nada iria me machucar."

saia para passeios anti-sedutores, um cruzeiro desinteressado que vibra em tudo, exceto sexo. ou, como escreve guy hocquenghem, "...se saior de casa todas as noites para encontrar outra bicha cruzando os lugares onde outras bicham ficam por aí, não passo de um proletário do meu desejo que não gosta mais do ar ou da terra e cujo masoquismo é reduzido a uma linha de montagem. em toda minha vida eu só conheci realmente o que eu não estava tentando seduzir."

animar outros modos de organização social com amor e erotismo. ter um seminário, um grupo de leitura, um partido político, uma gangue de rua, um jardim de pedras mais satisfatório do que duas pessoas em uma cama jamais poderiam ser. ame de tal forma que "aniquile as categorias desgastadas, neuróticas e egoístas de sujeito e objeto" como mario mieli sugere.

interrogue e desafie os caminhos que a lógica do casal constrói famílias. reconsidere os limites da família em que se visita durante os feriados. repensar os vínculos sociais fora do laço de casal, do laço de sangue, do laço jurídico.

construir espaços feministas autônomos onde a mulher produza sua própria ação e discurso. proibir a mediação entre os homens e relações entre mulheres. impedir que uma única relação se aliene dos processos que contribuem para a libertação e a abolição do capitalismo e do patriarcado. que nenhum vínculo se interponha no caminho da amizade, da organização e do avanço dos interesses da classe.

tornar inteligível o movimento da história e da práxis revolucionária como única história de amor possível.

não lamentamos a decomposição do formato-casal. gostamos de pensar nisso como uma bênção, um presente do futuro. consideramos a abolição do namorado e do marido parte do movimento histórico que substitui o capitalismo e o patriarcado. como escreveu o camarada dominique karamazov, a constelação de relações sociais após o capitalismo assumirá um caráter drasticamente diferente: "à medida que o comunismo generaliza o livre acesso aos bens e, entre outras coisas, transforma e aumenta o espaço disponível para viver, ele destrói os fundamentos e a função econômica da família. além disso, como é a realização da comunidade humana, destrói a necessidade de um refúgio dentro dessa comunidade." como uma relação historicamente limitada, as contradições internas da forma de casal um dia chegarão à sua conclusão, e o amor não reconhecerá mais a territorialidade das promessas, do gênero ou do sujeito. além das nossas lutas nas ruas e nos gráficos, abrimos uma frente a mais contra o aclopamento. a luta feminista continua sendo o horizonte sempre atraente diante de nós.

amarrei meu namorado com explosivos caseiros e o explodi. sua carne se espalhou por toda a parte. meu carinho também, enjoei do amor. caiamos na política.


(me diverti bastante ao escrever esse "ensaio" sobre o formato-casal, ou forma-casal. apesar do teor bem imediatista contra o contrato social do namoro, ele puxa um sentido que nós pessoas-femininas passamos ao longo do nosso crescimento e ensinamento, bastante intrigante pensar como somos ensinadas desde cedo que devemos nos casar com um bom e provedor home para que possamos viver confortavelmente em casa, escondendo um pensamento mais profundo ligado ao patriarcado de que as mulheres devem ficar com todo o trabalho doméstico e reprodutório. o amor pela essência ainda existe, no entanto ainda é importante se atentar aos papéis de gênero sendo aplicados nas relações, e como eles são aplicados. olhemos para nós mesmas como um individuo único.)

desfazendo o sexo: contra o otimismo sexual

(essa é a primeira tradução de um coletivo queer-feminista chamado "lies journal", o ensaio apresentado nessa postagem utiliza de teorias queer e feministas para se basear nas opiniões desenvolvidas, alguns dos termos citados podem parecer meio estranhos e diferentes, alguns até soam pejorativos, como o uso do sufixo -ismo quando se trata da comunidade lésbica, por serem retirados diretamente das teorias norte-americanas, procurei o mais próximo no português.)

desfazendo o sexo: contra o otimismo sexual​

I — começando

a história que nos é contada:

você está na beira da liberdade sexual; ela está aqui e a sua disposição. é pedido apenas que você ache ou faça. Se antes éramos feios, talvez sejamos bonitos agora — ainda assim, você precisa ser natural, inteiro e bom você foi traumatizado, mas pode se recuperar, simplesmente se possuir. é um trabalho para ser feito, mas um bom trabalho. trabalhe na sua vergonha e, quem sabe, até brigue com quem te envergonha, você vai ser livre. no final disso, você vai ser inteira e vai ter reconquistado seu prazer natural. é o direito de um homem foder e gozar. se sinta livre com seu corpo para fazer essas coisas, porque elas são boas. as feministas e liberalistas sexuais sabem disso e por isso o movimento acabou. cosmo e oprah sabem disso agora e consequentemente todos sabem. sexo é bom e prazeroso, é poderoso e é essa proposta que vai nos salvar da dor.

michael focault repete esse conto com todo seu fôlego: "algum dia, sexo vai ser bom de novo" no entanto, apesar de todo esse otimismo que ele aspira, ele existe perfeitamente com a realidade brutal da vida com gêneros. o estupro segue inabalável; a vida de muitas continua submersa em trabalho doméstico e reprodutivo. não é que esse otimismo seja simplesmente ineficaz, que foi apropriado e des-afastado por um sistema de repressão e deve ser salvo, mas sim que existe lado a lado com a vergonha e o silêncio, cada um jogando sua parte em uma ampla produção de sexo e gênero. se fosse radical e marginal afirmar algo essencial, ou simplesmente acessível, no bom de ter sexo, mas é central e institucional. longe de algum tipo de conjunto radical, é ao mesmo tempo uma ideologia do patriarcado e a maioria de seus oponentes, um disparate, uma coleção heterogênea de discursos unidos contra um único alvo. é o otimismo que insistentemente e cruelmente nos volta para o trabalho de foder.

esse otimismo é o que me posiciono contra. a sua história demanda explicação e eu anseio por imaginar uma política que apareça depois de abandonar esse apego pelo sexo completamente. se posicionar "contra o sexo" seria simplificar demais, em vez disso, experimento o sexo como um impasse à maneira de berlant: "desdramatizando o desempenho do julgamento crítico e político, de modo a retardar o encontro com os objetivos de conhecimento que são realmente cenas que mal conseguimos colocar nossos olhos ao redor." isso é, o sexo aqui não é como um inimigo a ser polemicamente confrontado, mas uma relação exaustiva exigindo exame, onde a dor e o peso do gênero são mais imediatos. meu projeto: ansiar pelo bem e sentir sua ausência, separando, historicizando, afogando-se nos fenômenos, "viajando no conteúdo", como chris kraus diz.

então, para esclarecer: eu não quero rejeitar uma parcela inteira do movimento feminista. dentre o posicionamento do "sexo-positivismo", até mesmo o otimismo sexual, tem gestos que seriam absurdos de se rejeitar — a historicização da sexualidade, desmitificando sexualidade, fornecimento de informações sobre IST's e contraceptivos para mulheres e queers, disruptando formas reacionárias de envergonhamento. o necessário está longe de ser um retorno sectário aos teóricos da "segunda onda", mas sim traçar o fio condutor que deu origem à nossa situação presente — as maneiras pelas quais o sexo foi exaltado, sua relação com os sentidos do eu e as ideologias do todo e do natural. o sexo-positivismo como um movimento social coerente seria apenas um tigre de papel, em vez disso o objetivo desse ensaio é perturbar o apego ao sexo que tem vivido no feminismo e na imaginação popular e sua relação que vive bem há mais de 30 anos no "femininismo sexo-positivista".

antes de continuar, quero esclarecer o meu uso do termo "não-homem":

"não-homem" não pode ser entendido como uma forma curta de dizer "mulheres e outros". é, na verdade, uma abrangência de identidades não-masculinas, uma maneira de se referir ao produto da relação de exploração. "é insensato descrever não-homens fazendo algo — qualquer coisa — ou tendo algo", porque não-homem é uma posição de silêncio, uma exclusão da subjetividade de como é trabalhar com gênero e patriarcado. isso não pode ser reduzido para nenhum grupo de corpos e identidades, e fundir isso com uma feminilidade única seria um erro, da mesma forma que seria fundir "proletários" com "trabalhadores industrial". nenhum de nós é considerado não-homens pela virtude da anatomia, ou identificação, enquanto, na verdade, não-homens é uma posição na qual somos forçados a se encaixar, independente do quão maior ou menor forem as formas de violência de gênero.

efetivamente, o não-homem não pode falar e nem ser representado com uma exatidão total, já que é definido por falta e ausência. ainda assim, é um ponto em um relacionamento causado pelas "classes de gêneros", é a discussão disso é necessária para o entendimento do que é ser uma mulher, homem, transgênero, ou queer. não-homem é uma forma de direcionar o problema do patriarcado — a forma na qual a masculinidade e a subjetividade masculina produz, se apropria e explora com as condições do silêncio, morte e vazio — ao mesmo tempo que evitando as pressuposição de um feminismo coerente e um assunto feminino. a não-masculinidade é uma constitutiva da realidade das classes de gênero — formas de feminilidade e masculinidade existem apenas em relação a isso — mas é irredutível para uma ou mais classes.

II — o feminismo sexo-negativista não aconteceu

apesar de toda a censura moral, o antagonismo ao que era percebido como "identificado como masculino" ou sexo patriarcal, a rejeição total da relação sexual com penetração — a rejeição do sexo por completo teve apenas um breve momento de aceitação dentro de uma leva bem pequena do feminismo. dois fatos confirmam isso: que a maioria das feministas "sexo-negativistas" (dworkin, por exemplo) negaram qualquer antagonismo ao sexo em si, e elas continuaram a afirmar e engajar com formas de sexo que eram recebidas como boas. A suspeita de ellen willis de que "a repulsa deles contra a heterossexualidade [servia] com a mais fina das capas para o desgosto com o próprio sexo" é, em última análise, falsa. não que tal repulsa não contivesse desgosto, mas que, no final das contas, foi reencaminhada e colocada para para funcionar em apego, ou afirmação, do sexo.

podemos traçar um senso de si mesmo, que se desenvolveu antes e depois do breve apogeu da "negatividade sexual", para ilustrar como essa afirmação do sexo começou. isso não é meramente coincidência, em vez disso, é um reflexo de uma íntima relação entre o agente sexual e subjetivação, particularmente dentro da teoria feminista. sexo, "como uma densa troca de pontos para relação de de poder", desenvolve sua forma lado a lado com a construção de agência e subjetividade, mas também, e mais importante, é um ponto onde alguém vem se tornar a ser. como direi mais adiante, o trabalho do sexo é frequentemente o trabalho de subjetificação e objetificação. assim como, a declaração política do que se é, deve ser, e deve ser falado, em seguida, carrega consequências imediatas no reino do sexo, como quem se é estabelecido pela forma como se age sobre ou com outros.

para traçar os sentidos da auto-motivação de grande parte da política sexual feminista, podemos começar com simone de beauvoir em o segundo sexo. nele, ela estabelece muitos dos fundamentos teóricos para o feminismo subsequente, mais poderosamente em sua concepção de subjetividade e agência. ela escreve: "o drama da mulher está nesse conflito entre as aspirações fundamentais de todo sujeito... e a compulsão de uma situação na qual ela é inessencial." essa formação existencialista, de que a luta das mulheres é recuperar ou afirmar recentemente a vontade essencial do sujeito em direção à liberdade, torna-se fundamental para muito do feminismo subsequente.

não surpreende então, que muito do que de beauvoir problematiza na sexualidade é a passividade forçada da mulher, e para combater isso ela propõe reciprocidade. caso o homem "deseje e respeite" ela, "sua integridade permanece intacta enquanto ela se faz objeto, ela permanece livre na submissão na qual ela consente. por isso o ato do sexo é dito ser um jogo de dar e receber e a agenda sexual igualitária é posta. ela descreve entusiasmada o narcisismo, a urgente subjetividade de possuir o corpo feminino, encontrado na sexualidade de um adolescente virgem.

feminismo radical, de 'SCUM manifesto' da valerie solanas, se choca com de beauvoir nisso e problematiza a subjetividade masculina por si só, não somente a excluindo. particularmente, solanas faz essa reversão com clareza, descrevendo o masculino como "fisicamente passivo", "vazio", "preso dentro dele mesmo" e essa fraqueza como motivação para possuir, foder e guerrear. todo o modo de definição do homem em ser e si mesmo, descansa na habilidade de se apropriar e matar. ele não pode existir consigo mesmo, não pode ser contido e não pode experienciar nenhum tipo de empatia ou alguma experiência intersubjetiva. isso, que solanas identifica como o "sexo masculino", ou masculinidade como um todo, é a raiz da nossa sociedade. ele, no desejo louco que o leva a possuir, constrói a família, paternidade, guerra, o governo, capitalismo (ou "o sistema monetário") e o entendimento deformado da natureza feminina. então, para solanas, o projeto de desfazimento desse mundo significa destruir o sexo masculino.

mas solanas presume que mulheres tem a habilidade de ser em uma maneira inteiramente diferente. as mulheres tem um ser para manifestar, e enquanto elas são condicionadas à uma fraqueza e passividade definidas por homens, isso pode sobressair no processo de destruir a sociedade. sem sua "masculinidade", as mulheres são calmas, donas de si, capazes de sentir empatia e capazes de desenvolver uma sociedade baseada nesses atributos. usando uma leitura flexionada de mary daly, as mulheres são as possuidoras do brilho divino que os homens falham desesperados em se apropriar, e se forem além do mito masculino, podem fazê-lo se manifestar politicamente. o projeto feminista parte dessa diferença essencial. enquanto algumas feministas radicais, "cell 16" como um exemplo notável, perseguiram o lado mais negativo do pensamento de solanas, talvez o mais influente foi essa noção de diferença que foi usado pelo separatismo lésbico.

em um dos primeiros documentos lésbico-feministas, "lésbicas-radicais, a mulher identificada como mulher", uma dupla imagem do lesbianismo é apresentada como influente e ilustrativo. em um sentido, o lesbianismo é primordialmente um trajeto político, uma forma de rejeição à feminilidade patriarcal e, mesmo assim, "uma categoria de comportamento possível somente em uma sociedade sexista". ainda, em outro sentido, isso, ou talvez a identificação de uma mulher existindo meramente por detrás da "lésbica", é uma forma de construção e afirmação da verdadeira identidade. seguindo um comprometimento adequado com mulheres, diz-se que a própria sensação de alienação recua, revelando "uma nova consciência de e uma com a outra". é apenas "com aquela verdadeira identidade, aquela consciência" que o movimento revolucionário pode proceder.

a eventual ascensão da última tendência fez uma tremenda ruptura com o feminismo radical anterior. em vez do eu autêntico ser um produto do desmantelamento bem-sucedido do patriarcado, é uma pré-condição para isso. nos primórdios do separatismo lésbico, isso é menos central. o avanço da consciência e do lesbianismo foram, embora priorizados, abordados em termos mais táticos do que metafísicos. o lesbianismo e o desengajamento da esquerda masculina eram um meio para o fim, uma forma de comportamento e identificação que oferecia um desafio às formas de patriarcado. "a mulher identificada como mulher" faz o argumento de que a "estrutura heterossexual... nos vincula em relacionamentos individuais com nossos opressores", tornando-a de tal forma que as "energias e compromissos" sejam divididos e prejudicados. os furies, em alguns artigos anteriores, fazem referências repetidas para a capacidade do lesbianismo em "minar a sociedade dominada pelo masculino não fodendo e nem reproduzindo", destacando sua necessidade em discutir as falhas do feminismo heterossexual e apego aos homens. as identidades lésbicas [delas], mesmo quando tomado como a única estratégia útil, tem elementos de ser apenas uma estratégia em vez de um fim em si mesma. mas conforme os anos 70 progride, a tendência de declarar lesbianismo como uma "realidade completamente diferente" (spectre, 1971), e uma procura de "pureza com a neve, ego livre e sem fins lucrativos" (everywoman, 1971) progrediu até eclipsar com os lesbianismos anteriores. para tigrace atkinson, que declarou anteriormente que "feminismo é a teoria e o lesbianismo é uma pratica", se tornou "feminismo é a teoria e lesbianismo é a pratica".

o que alice echols descreve como feminismo cultural começou a partir dessa fundação, tomando como seu princípio organizador uma feminilidade essencial. enquanto o feminismo radical anterior defendia a destruição ou separação de gênero, o feminismo cultural falava de recuperar um matriarcado antigo e afirmar uma verdadeira feminilidade escondida pela opressão. mary daly é, talvez, a mais exemplar do feminismo cultural, seu trabalho devoto a nomear e descrever sem parar essa feminilidade essencial, seus movimentos únicos, sua vontade de vida e, acima de tudo, sua afirmação. no final dos anos 70, sua preocupação passou a defender a integridade corporal da força vital pura que ela atribuía às mulheres — eventualmente descendo ataques à transexualidade. ela descreveu isso como uma espécie de "fenômeno frankenstein", "a loucura da violação de limites,... a marca dos necrófilos que sentem a falta do princípio de alma/espírito/amor à vida consigo mesmos e, portanto, tentam invadir e matar todo o espírito, substituindo conglomerados de cadáveres."

uma escola, em particular, do feminismo cultural influenciada por daly definiu para si uma tarefa de desenvolver o contrapoder lésbico, estabelecendo comunidades, eventos e negócios refletindo em uma "presença" metafisicamente diferente do mundo patriarcal. a própria daly argumentou por um "contra-mundo" feminino, onde tamanha presença iria "irradiar para fora, atraindo outros" em uma forma de ação denominada ginecologista/afetiva - "tanto a descoberta quanto a criação de um mundo diferente do patriarcado", mas tal mundo nunca foi verdadeiramente construído. o contrapoder lésbico permaneceu produzido pelo mesmo capitalismo, patriarcado e supremacismo branco que o resto do mundo, e foi limitado a uma reinscrição de indiferença sexual, embora em linhas diferentes. sendo assim, a estratégia do separatismo lésbico, mesmo com toda a sua ideologia contrária, ficou contente em ser mais como os homens, ter mais acesso as formas masculinas de poder e identidade natural, ser donas de negócios e livres e saudáveis egos existindo em amizades, autonomia e autenticidade.

além do desenvolvimento do contrapoder, a mudança pela qual a identidade autêntica se tornou a condição a pré-condição para o feminismo informou e impactou a política de representação e consciência, dentro das variedades do movimento anti-pornografia, isso se tornou especialmente falado. a afirmação de robin morga diz que: "pornografia é teoria, estupro é a prática."

representações pornográficas e ideais sobre mulheres foram a causa do estupro, enquanto o masoquismo era uma espécie de falsa consciência pela qual as mulheres racionalizavam a exploração contínua. ambos representavam uma aberração de um modo de ser saudável, que poderia ter sido corrigido através da mudança da cultura e da promoção da consciência correta. essa atitude em relação ao sexo era, embora muitas vezes uma negação de quase todo o sexo hétero e muito sexo lésbico, em última análise, um conservadorismo que visava proteger e afirmar uma forma de bom sexo uma defesa de uma sensualidade supostamente pura.

essas tensões no movimento anti-pornografia muitas vezes exemplificaram a mudança cultural e a priorização da consciência que passou para o feminismo pró-sexo e sexo positivista. devido à suposta casualidade, em que a teoria pornográfica e a autoimagem, e não as condições materiais, deram origem direta às realidades do estupro e da exploração patriarcal, essas políticas retornaram a uma estratégia liberal de desafiar a representação. os radicais, dentro e fora da luta anti-pornografia, criticaram tais atitudes enfatizando que a pornografia era um sintoma do patriarcado ou uma realidade cuja vida era muito maior do que representação e ideias. ainda assim, a postura materialista-radical acabou não conseguindo ganhar força e, nos movimentos sexo-positivistas recentes, há uma ênfase familiar na cultura e na consciência em desprender o ódio corporal, promovendo atitudes saudáveis em relação à sexualidade e a conscientização como um fim em si mesmo.

talvez mais sutilmente, essa política se baseie em uma fé com um tipo de liberdade negativa. defendendo o patriarcado "de forma livre" e, ao fazer isso, afirma o potencial a definição do assunto. nas formações feministas radicais e culturais, essa liberdade era a liberação das mulheres como uma classe, e as decisões individuais das mulheres se tornaram responsáveis no ponto em que beneficia todas as mulheres. para aqueles excluídos deste conceito estreito do que o comportamento livre implicava gays liberacionistas, lésbicas sadomasoquistas e outros que apreciam atos sexuais e gêneros proibidos tal concepção de libertação foi rejeitada, em favor de uma afirmação muito mais ampla.

em seu ensaio de 1984, "pensando em sexo", gayle rubin articulou um exemplo dessa mudança na análise. o que ela problematizou foi principalmente a "injustiça sexual", como resultado do que ela chamou de hierarquias sexuais. em nosso mundo cristão e repressivo, o sexo está sujeito a uma espécie de distinção maniqueísta de "sexo bom/sexo ruim" há o sexo correto, baunilha, o sexo entre casais performado de graça, e, então, tem o sexo difamado. tentar simplesmente mudar o que é sexo aceitável e o que não é, reproduz essa lógica da ideologia dominante do sexo.

mas dentro desse argumento há uma mudança completa na base de uma política sexual. partindo de feminismos anteriores, ela escreve que "é essencial separar analiticamente gênero e sexualidade para refletir sua existência social separada." a liberação sexual, em tal contexto, envolve a minoria sexual sendo livre de julgamento indevido, em vez da liberação por completo de uma classe. a presunção dela é que a violência da sexualidade estrutural, é, em vez de uma opressão de gênero contra mulheres, uma opressão direcionada a esses engajados no que a cultura dominante determina como "sexo ruim". homossexualidade, promiscuidade, fetiches, e pornografia são efetivamente equalizados como todos sendo oprimidos por esse sistema de "estratificação sexual" e hierarquia, literalmente agrupados em um diagrama do "sistema de valores sexuais". para rubin, interrompendo e rejeitando o negativismo sexual permite para uma democracia de "éticas sexuais plurais". apesar de sua recusa de colocar um assunto essencial na procura da liberação, seu modelo de agência supõe um projeto político que constrói uma identidade na mesma democracia, igualdade e princípios liberais de beauvoir. o sexo radical de rubin não é nada mais do que uma pauta liberal extremista, livre para fazer tudo desde que não atrapalhe a liberdade de outros, e sua estratégia ainda mais liberal a afirmação da agência individual e liberdade de representação.

desde então, essa atitude liberal pró-sexo persistiu, ultrapassando os feminismos "anti-sexo" e entrando no convencional. do lado explicitamente feminista, "o sim significa sim" orientou protestos com marchas das putas, em adição para protestar contra o estupro, assédio nas ruas e a culpabilização da vítima, centralizando uma narrativa bastante contundente da reivindicação e celebração do sexo. usando uma retórica de agência pessoal, essa ética sexual de reivindicação enfatiza a capacidade do sujeito individual de atingir um estado não alienado, nem mesmo através de meios especialmente políticos. tudo o que é necessário é uma falta de vergonha sobre o sexo e algum controle sobre como se quer ser fodido. em um retorno à política do orgasmo dos anos 70, tal atitude postula apenas a proposição radical "de que o sexo é bom", e as atitudes de negação do prazer em contrário são removidas. tais preocupações são parcialmente espelhadas em um sempre presente, uma espécie de liberacionismo sexual no estilo oprah, um direito ao prazer sexual, para recuperar a natureza dos "animais sexuais". podemos ganhar a libertação do que é ostensivamente "nossa" frigidez forçada e vergonha por performar prostituta em vez de virgem, escolhendo uma roupa sensual para nosso homem como um ato de revolução.

mesmo as atitudes queers ostensivamente radicais sobre sexualidade, encontram a si mesmos repetindo tal relacionamento. enquanto a crença de um ego essencial e autoafirmador é muitas vezes abandonada em favor de uma visão construcionista social, o drama da política sexual torna-se reformulado como uma tensão entre "normativo/não-normativo". as normas são concebidas em sua capacidade de suprimir ou no grau em que são subvertidas, e assim "obtém-se pouca noção do trabalho que as normas executam além desse registro de supressão e subversão dentro da constituição do sujeito". tomado sem referência ao outro trabalho das normas como é frequentemente o caso nos círculos queer, isso retorna a uma postura liberal à medida que a habitação e a interrupção das normas se confundem com a "resistência". na prática, isso valoriza um tipo particular de postura queer, pela qual o sujeito individual demonstra a capacidade de realizar o gênero "de forma não normativa", através do exagero, ironia ou fracasso. quanto maior o dinheiro perdido em normas e demonstração de individualidade, ou adesão a uma exibição subcultural de individualidade, maior a suposta resistência.

é o meu objetivo rejeitar todas essas valorizações do sujeito, como em si mesmas boas e como em si mesmas nosso objetivo. na história do feminismo dos eua, as subjetividades propostas como propriamente feministas se apresentaram como às vezes úteis, mas, em última análise, limitam o movimento feminista e devem ir além. subjetividade e identidade são eles próprios efeitos materiais do patriarcado, assim como os meios pelos quais a subjetividade se afirma no reino do sexo; eles são todos a realidade sexual. lutar contra nossos condições é lutar contra o que essas condições nos fizeram ser, e ao fazê-lo devemos questionar e problematizar exatamente como nossas posições surgiram. ao apreender este mundo, e, portanto, o gênero, como uma totalidade, segue-se que nossas identidades são a própria interioridade que procuramos escapar que nenhum de nós alcançou, ou pode realisticamente alcançar imediatamente, a postura da forasteira, a nova mulher do pós-feminismo.

iii — a metafísica do sexo: o todo e o natural

uma afirmação comum dentro de um discurso popular é que o sexo é natural, que sempre estará aqui e que, então, condená-lo é mero puritanismo. é claro que podemos lutar pela igualdade sexual, por novas linguagens e práticas do sexo que possam torná-lo algo equitativo  mas negar que a necessidade do sexo, seu prazer e procriação como uma função essencial e boa de nossos corpo, é tóxico, negando a vida. resta dentro do sexo, tal como existe no presente, um núcleo que é ahistórico, produzido apenas por nossa humanidade ou nossas estruturas físicas. o senso comum e a ciência popular confirmam isso; somos animais fazendo o que os animais fazem e sempre fizeram, a sociedade meramente perverte e reprime essas pulsões.

uma análise positiva sexual mais radical permite a crença de que essa natureza está temporariamente ausente, mas que um tipo semelhante de ser, "completamente" ainda pode ser conquistado. pode-se ser incapaz de ter um bom sexo devido a traumas ou misoginia internalizada, mas o potencial para um bom sexo, um sexo não patriarcal, permanece dentro de todos nós. alguns oferecem abordagens relativamente individuais para alcançar esse potencial uma terapia voltada para a cura, elevação de consciência de tal forma que podemos desaprender imagem corporal negativa enquanto outros sugerem estilos de vida e comunidades alternativas inteiras. em uma ponta distante dessa análise, é um prazer radical ou puro desejo que nos oferece um potencial liberatório, e isso deve ser alcançado quebrando códigos de moralidade ou simplesmente encontrando a centelha de desejo dentro de nós. enquanto a maioria do sexo é composta da história feia do gênero, podemos representar um sexo alternativo composto inteiramente por outra coisa, ou realizar a sexualidade de tal forma que ela seja desfeita. é só uma questão de fazer certo desta vez, fazendo mais, enfatizando o belo ou a identidade destrutiva naquela que já fazemos. ao longo de todo esse pensamento resta um fio condutor: uma fé em um sexo bom, um sexo que é "apenas" sexo e fora da exploração, sendo já manifesto na terra ou a ser provocado por nossas ações.

foucault começa a responder isso no volume um de "a história da sexualidade":

"ao criar o elemento imaginário que é o "sexo", a implantação da sexualidade estabeleceu um de seus princípios internos de funcionamento mais essenciais: o desejo do sexo, o desejo de tê-lo, de ter acesso a ele, de descobri-lo, de libertá-lo, de articulá-lo no discurso, de formulá-lo na verdade. constituiu o próprio "sexo" como algo desejável."

o sexo como figura dentro do discurso só tem a existência como os processos que o criam e constituem, o processo dando-lhe sentido é "o processo através do qual a desigualdade de gênero se torna socialmente real." os atos sexuais simplesmente não existem como coisas por eles mesmos, como essência não formada pelo contato e pela história. na busca das formas ideais do sexo dentro de nós elas recuam sem parar, apresentando apenas mais elementos do discurso. pode-se psicanaliticamente separar o inatismo de uma pulsão, ou apontar para os mecanismos que transformam um pênis em um "pau" e a vulva em uma "buceta", mas isso nunca pode ser o suficiente. apesar de ausência de um corpo não mediado, pode-se responder que não fomos suficientemente fundo, que é apenas uma questão de quebrar nossa socialização ou avançar ainda mais no projeto feminista. neste sentido, o sexo natural/puro está além da confirmação ou negação no reino dos fatos objetivos, e assume o caráter de uma teologia. no entanto, essa teologia tem ramificações materiais imediatas, como um componente de ideologia de foucault diz, com razão, ser essencial.

dentro do processo de garantir o sexo como uma essência, distinta dos movimentos históricos, ideológicos e materiais da sexualidade, um processo simultâneo trabalha para garantir essa essência como desejável. "o próprio sexo" (ou de outra forma ontologicamente distinta do sexo) leva todo o seu valor de fusão com estados metafisicamente diferentes semelhantes de ser. isso pode ser visto dentro da criação do "erotismo" dentro de certos feminismos. o erótico é primeiramente separado da sexualidade masculina ou pornográfica, ele de alguma forma pré-existe e é ofuscado pela "mente pornográfica" (mckinnon, parafraseando susan griffin), e assim ofuscando pelos afetos genéricos, materiais patriarcais dessa mentalidade pornográfica. simultaneamente, o "erotismo" é carregado de um valor como sendo da identidade liberta, como um modo de trabalho e subjetivação que não se apropria. neste processo de nomear um erotismo único, ele nomeia atos específicos e materiais como eróticos, distintos da sexualidade patriarcal como a expressão imanente dessa essência radicalmente diferente. em um extremo, essa essência é tida como absoluta, absolutamente diferente do ser desse mundo e não formada pelo seu contato com ele. sua imanência passa a ser atribuída a toda uma forma de vida uma comunidade feminista como uma espécie de comunhão, uma essência compartilhada. daly nega "uma divisão entre o amor erótico e a amizade" e, colocando sua base teológica nua, descreve essa amizade como acalentar "faíscas divinas... sabendo que sua combustão combinada é a criação do fogo feminino."

o apego a uma forma de sexo imanente e absoluta, a crença de que essa imanência é fundamental para a comunidade (seja ela já presente ou como o horizonte para o qual devemos trabalhar), é totalizante e cruel. o imanente sexual já é a forma pela qual se deve lutar, assumindo politicamente a forma de cerco, defesa e reimposição de um erótico existente. o projeto de presença radical, definido como uma união totalmente repetida do sexo incorreto. o diferente absoluto, não pode simplesmente encerrar um território (e assim permanecer em contato com outras essências, comunicando, contaminando), deve encerrar o recinto, estar sozinho com sua solitude. é impossível, e assim a "verdadeira comunidade" que ou foi perdida ou não adequadamente estabelecida, fecha-se, tenta purificar a si mesmo e ao mundo.

no feminismo cultural mais totalizante, a presença do absoluto é mantida por alguns eleitos (embora, de acordo com seus tons calvinistas, não se possa ter certeza de quem), e o projeto de alcançá-lo requer otimização constante e racional de boas obras. debuta-se infinitamente sobre o que constitui penetração, que nível de jogo de gênero é aceitável, como é melhor se comportar de uma maneira verdadeiramente lésbica. do outro lado: o liberacionismo sexual, propondo ao invés de boas obras, um perpétuo desfazer de costumes sociais, visando alcançar ou ter reivindicado a realização de um estado de natureza logo abaixo da superfície. levado ao seu extremo mais longínquo, o niilista-libertido batailleano, que percebe a impossibilidade de seu projeto, e assim o concebe como puro suicídio/puro assassinato.

mas deus não vem, não pela ação humana. o grande muro, o grande projeto da verdadeira comunidade, ficará para sempre incompleto e seus construtores terão morrido por nada. a partir daqui, descrever o movimento do pró-humano, ou da comunidade tal como ela existe de fato, torna-se possível. separados da identidade imanente ou da comunidade-como-comunhão, resta-nos buscar, dolorosamente, a explicação. não recorremos a uma natureza pura ou piedade pura, qualquer parte do mundo que possamos reivindicar seja verdadeiramente boa, para fazer com que o mundo se ajuste. a imagem de eden contém "nada a que se referir, nada a que olhar" neste vácuo, escrevemos, nos comunicamos, tentamos dar sentido ao mundo, agimos de maneiras que esperamos que façam sentido, inevitavelmente falhando e comunicando essa falha.

abandonar a comunhão/comunidade cristã - o futuro brilhante, manifestado agora e ditado pelos eleitos - sem sucumbir a um expediente, falso-niilismo apático, imaginando todo mundo como natural, inevitável, condenado. este espaço, comunicativo e preocupado com o movimento, interno a este mundo à medida que procura ir além dele, não se propõe a efetuar um novo mundo completo, nem se resigna à reforma ou à elevação da consciência. uma abordagem radical do sexo "não é para nós um estado de coisas que deve ser estabelecido, um ideal ao qual a realidade [terá] que se ajustar. chamamos [isso] de movimento real que abole o presente estado das coisas."

como parte deste (anti)projeto, tento falar sobre sexo usando as estruturas que falam com mais precisão à dor, incomunicável e inconsolável, perduro dentro do gênero feminismo marxista e pós-estruturalista, discurso e história sem se referir ao prediscursivo ou ao ahistórico.

tentar me curar de um trauma conseguiu me foder pior porque comecei a perguntar "o que eu quero? o que eu realmente quero do sexo?" e mergulhando em busca do meu impulso sexual estragado, não encontrava nada, mesmo.

muitas vontades de estar perto e me sentir segura, querendo ser validada e vigiada e essas merdas todas, mas nada que pareça inato. sem me embriagar, tudo o que consigo é a famosa frase de bartleby "eu preferiria não". sobre as palavras do catecismo, que sou feito à imagem de deus, engasgo com mesmo de mentir. se há algo de um ser-espécie que permanece em mim, parece irremediavelmente perdido.

me dizem as orgias que presencio serem uma ruptura, que algo diferente está acontecendo, mas não vejo. no final eles voltam ao trabalho, voltam a esse mundo fodido que os deixa loucos, tendo vontades, cruéis e tudo que eu sempre vi foi um momento onde todos pararam de se importar com o quanto tudo aquilo era normal. que chato esperar que no fundo de tudo, se ao menos forçarmos mais, haverá algo bom. tudo que sade conseguiu foi um monte de cadáveres que nunca tiveram o que ele queria.

de onde as velhas feministas achavam que surgiria a diferença? o que neste mundo poderia compensar o próximo? peço que não zombe deles, mas porque continuo retornando a ele, esperando que a resposta seja diferente, esperando que eu a encontre por acidente um dia e assim tudo possa ficar bem, mas não acontece, e agora?

iv — sexo e sujeição

não muito diferente do trabalho "natural", o sexo, embora presumido como um fato pré-existente do corpo, exige uma produção social elaborada para trazê-lo à existência. a analogia com o trabalho torna-se clara no momento que "essa é uma mercadoria estranha para não ser uma coisa. a capacidade de trabalhar reside apenas em um ser humano cuja vida é consumida no processo de produção." caracterizar o trabalho como natural e, portanto, ahistórico, serviria como uma máscara para o trabalho reprodutivo que o traz à existência; da mesma forma, caracterizar o sexo como natural obscurece a produção social que o trouxe à existência. alterando a citação anterior, podemos dizer: "a capacidade de ser fodido reside apenas em um ser humano cuja vida é consumida no processo de reprodução social."

isso não quer dizer que os humanos, como animais anteriores a qualquer desenvolvimento da cultura, não se envolvessem em comportamentos agora reconhecidos como "sexo", mas sim que seu significado discursivo e todas as práticas materiais que constituem são historicamente produzidos. da mesma forma, os humanos sempre agiram e criaram, mas é apenas no desenvolvimento capitalista, nos processos que nos alienaram e proletarizaram, que isso se torna garantido como "trabalho". o que nos impulsiona a fazer sexo, no aqui e agora, é algo determinado pelos fluxos de poder e estruturas econômicas que nos produzem como "mulheres", "homens", "trans", "hétero", etc. se há milhares de anos havia um modo pré-generificado de prazer, personificação e uso da genitália, ele está irremediavelmente perdido para nós. o contato radical que feministas lésbicas como janice raymond esperavam está infinitamente ausente. não há presença da identidade do outro, nem oportunidade para o verdadeiramente intersubjetivo, só um campo interminável de toque, afeto, ânsia, sobrevivência e as relações de poder, produzidas e mediadas por nossas condições materiais.

assim, então, qualquer menção aqui de "sexo" não está se referindo a qualquer interação de corpos, como atos sozinhos fora da história, mas sim do sexo, pois é uma figura entro da sexualidade e, portanto, dentro de fluxos de poder. refiro-me não ao sexo como poderia ser ou como é em si mesmo, mas como é experimentado aqui e agora, milhares de anos profundamente no patriarcado. não há natureza no sexo que o torne essencialmente maligno, e não há razão para negar que o "sexo", como atos físicos, poderiam ter significados radicalmente diferentes no futuro, assim como tiveram no passado.

nossa compreensão do sexo deve então dispor de todas as noções naturalizadas de sexo sexo como rito sagrado, sexo como comunhão, sexo como aspecto fundamental da vida e sexo como o meio necessário pelo qual os corpos são descobertos e explorados. da mesma forma, visões idealizadas de sexo como uma expressão da totalidade feminista, como uma irrupção radical de prazer e como um local de gozo destruidor do mundo são contraproducentes. "a dominação masculina aqui não é uma sobreposição artificial sobre um substrato inalterável subjacente de ser sexualmente essencial e não corrompido. sexualidade livro do domínio masculino exigirá mudança, não reconceitualização, transcendência ou escavação."

o sexo deve ser compreendido através de sua relação com nossa estrutura econômica e política, ou seja, capitalismo, patriarcado e supremacia branca. como tal, o sexo pode ser entendido como trabalho. não apenas o trabalho óbvio de fazer bebês (embora isso ainda seja importante e central em certos contextos), mas uma vasta gama de funções dentro do trabalho de manter um corpo de trabalhadores. o sexo não-procriativo é permitido e fomentado não por causa da sociedade ter se aproximado mais em direção à liberdade, mas porque o trabalho reprodutivo exigido pelo capital moderno não é meramente o do crescimento populacional, mas da criação do eu, do indivíduo e, consequentemente da identidade.

 podemos perceber isso dentro da narrativa moderna da perda da virgindade. não é mais uma venda arcaica para a escravidão do trabalho doméstico, mas uma vinda pluralista para dentro de si, repetida para sempre em cada ato de sexo. este é para alguns um momento em que um se refugia no corpo do outro, um construído como um lugar quente e cedente sobre o qual alguma impotência primal pode ser resolvida. a identidade se torna conhecida em sua capacidade de se dissolver-se com segurança, de deixar ir e ser pega por um outro. para outros, é um campo pelo qual se pode tornar-se compreendido, pode articular-se em termos alienígenas e sempre presentes: beleza, fisicalidade, disponibilidade (chamado "desejo") para o sexo. pode-se até, devido à benevolência do progresso ou aos confortos da sexualidade não-hetero, cumprir em algum grau ambos os papéis, no que é chamado de "empoderamento" e "mutualidade".

dentro dessa visão de entrar na identidade sexual de alguém, há uma contradição crítica para pelo menos uma das pessoas que trepam com a agência é conferida apenas encontrando um lugar dentro do campo em que o sexo age. o indivíduo não "fode" tanto quanto ele encontra seu espaço no ato de "foder" constituído através de inúmeros atos de auto-produção. o vir a ser como mulher, ou como qualquer uma das outras subjetividades de gênero disponíveis para não-homens, é assegurado através de reificação simultânea da posição estrutural do silêncio a existência da classe como não-homem. modificando uma declaração de mackinnon: uma vez que não-homens "tem" sexo, é perdido como seu.

concepções radicais de consentimento então dependem de uma impossibilidade estrutural o sujeito liberal. em seu início, o consentimento radical presume que podemos, teoricamente, fazer sexo de tal forma que ninguém seja objetificado, ninguém sendo ferido. todos podemos ser bonitos, todos podemos ser empoderados, todos podemos fazer sexo de maneiras que nos pareçam certas, e se a cultura do estupro está se totalizando demais agora, pelo menos o que é importante é que avancemos em direção do consentimento e, assim, expulsemos o não consentimento.

no entanto, as estruturas que ordenam o sexo não permitem que essa visão esperançosa seja realizada, e é dentro da cultura do consentimento que sua impossibilidade se torna amargamente pronunciada. para todas as mudanças culturais ocorridas, o sexo permanece uma questão de sujeitos e objetos, de corpos falantes tirando algo dos silenciosos, mesmo entre corpos onde a fala e o silêncio coexistem. as pretensões de igualdade e consciência não apagam o mundo do qual o sexo é produzido e tornado legível.

v — o valor e o consumo do sexo

a partir daqui, o sexo deve ser entendido como algo inextricavelmente determinado por noções de valor. na formação mais contundente do sexo, alguns corpos produzem valor sejam esses: bebês, satisfações, beleza, senso de si, etc e outros corpos colhem o benefício de tal valor na troca de sexo. o sexo é um momento, entre muitos, em que os corpos se transformam em uma substância para ser "desfrutada", ou seja, consumida.

o conceito de "empoderamento sexual" do feminismo liberal pode então ser tomado como um impulso para a autopropriedade, para se beneficiar da própria produção de valor. isso não é necessariamente inútil, e às vezes apresenta um poderoso desafio ao silêncios necessários às formas do patriarcado, mas como um objetivo em si é uma demanda por maior representação em uma economia fálica do sexo, o consentimento radical leva essa demanda ainda mais longe até que se torne quase autoparódia: todos podem ter acesso à posição do assunto e, como tal, todos podem se beneficiar de sua própria produção de valor, mas economia fálica não permite tal utopismo. mesmo que para um encontro possa parecer mútuo, sentir-se decidido por atores livres e iguais, a mecânica subjacente do sexo não foi desafiada. a posição do sujeito necessita do objeto; qualquer valor produzido pode sempre ser apropriada e sempre será conveniente apropriar-se. o ato do estupro estará em tal contexto sempre disponível, e quando a vingança contra o estuprador pode ser contornada, sempre será promulgada.

para começar de novo: corpos femininos, "mulheres" ou não, são lançados como forças (re)produtivas e como mercadorias. oferecidos pela maioria dos feminismos sexuais positivos são meios pelos quais essa produtividade pode ocorrer com um mínimo de violência, em que um corpo lançado na posição de objeto em alguma agência dentro de um encontro sexual já presumido. o cosmo nos oferece uma gama de novas posições interessantes com nosso homem, a revista do consentimento nos oferece maneiras de negociar semi-formalmente encontros sexuais; encontramos maneiras de nos sentirmos bem com o que estamos fazendo, o que devemos fazer por segurança e sobrevivência. mas isso tudo é dentro de um contexto onde se presume que nossos corpos sejam meros locais, de fabricação de bebês, de prazer, de autodescoberta, de qualquer coisa, e esse contexto não é contestado ou desafiado com a afirmação de que todos têm o direito ao prazer, ao autoconhecimento, aos bebês. a produtividade sexual é talvez reconhecida e quando o trabalho sexual é abordado, isso é flagrante , mas presume-se que seja neutro. quando o dinheiro está envolvido é "apenas um trabalho"; quando outras formas de valor, como a aparência física, estão envolvidas, tudo o que se obtém é "claro, ninguém deveria ser forçado a ser bonito, mas o que há de errado com a beleza?"

a produção sexual e a auto-propriedade são agradáveis até se confrontarem com a materialidade do consumo. "o consumo dá ao produto o toque final ao aniquilá-lo, uma vez que o resultado da produção é um produto, não como a personificação material de atividade, mas como um objeto para um sujeito ativo." uma economia capitalista do sexo, em seu modo fálico de sujeito/objeto, culmina e se reproduz em atos de morte tísica em momentos de silêncio, negação, violência e estupro. é no estupro, e no consumo violento que o tipifica, que o "não-homem" assume seu significado e é colocado para trabalhar, e é apenas dentro, ou sobre, essa classe que todas as formas de empoderamente sexual concedem.

vi - estupro e morte

há então alguma verdade na frase, atribuída erroneamente a andrea dworkin, de que "todo sexo é estupro". o estupro e o sexo estão longe de serem estranhos um ao outro, mas sim são elementos mutuamente constitutivos de uma estrutura mais ampla de exploração. a violência e a transgressão do estupro não é aberrante e sim um aspecto definidor da sexualidade. é a apropriação original que impulsiona todo o consumo ou autopropriedade subsequente, uma ameaça ou realidade que torna a sexualidade significativa. definir as qualidades que fazem do sexo um evento ao contrário do estupro se torna difícil; não há verdadeira ausência de força, nada que o consentimento não esteja nos termos do poder masculino.

a abordagem feminista, agora tradicional, para acabar com o estupro reconhecendo o estupro como um ultraje moral, tentando isolar suas características inaceitáveis e remover seu câncer do corpo de sexualidade de outra forma saudável falha desde o início para abordar essa realidade. na prática, isso muitas vezes adere a um padrão colonialista, a sociedade civil, oferecendo sua mão para salvar, ou corrigir uma aberração. estupro, nos dizem, é violência, não sexo. o estuprador é uma criatura quase metafísicamente diferente do homem normal, ou um monstro, ou, para os liberais, simplesmente muito doente. é alguma outra coisa, uma qualidade dos caídos. no entanto, as realidades concretas do estupro contradizem flagrantemente isso. a frequentemente citada estatística de que estamos muito mais propensos a ser estupradas por alguém que conhecemos, em vez de algum estranho à espreita em um beco, confirma a suspeita que se ganha com a experiência dolorosa. estupro equivale a um exercício horrívelmente normal de poder homens sobre mulheres, branco sobre marrom, hétero sobre gay, carcereiro sobre prisioneiro, e assim por diante. "um estupro não é um evento isolado, ou transgressão moral, ou intercâmbio individual que deu errado, mas um ato de terrorismo e tortura dentro de um contexto sistêmico de sujeição grupal, como linchamento."

ao longo de toda a sexualidade podemos encontrar muitas das qualidades atribuídas especificamente ao estupro. não é um exagero dizer que o trabalho afetivo da sexualidade, o trabalho emocional da subjetivação do outro, é explorador. da mesma forma, as restrições estruturais ao consentimento, a violência sutil e não tão sutil que torna o "não" inédito ou indizível, pode ser experimentada como coerção, e a abdicação da autodefinição e submissão à vontade do outro, muitas vezes necessária para entrar em sexo, pode ser sentida como violação. é em tal experiência que a presença do estupro, sua inextricabilidade a partir do sexo torna-se clara, ainda assim caracterizar terminantemente toda experiência de sexualidade como estupro seria uma negação da diferença. sexo e estupro não são dois pontos em um espectro de violência e exploração de gênero, sendo um simplesmente mais doloroso, mas sim estupro é aspecto distinto do patriarcado e da sexualidade coexistindo e mutuamente definitivo do sexo "normal", que vive uma vida diferente socialmente. as designações de cuja violação é tolerável, ou encorajada e cuja indignação moral é em si uma relação concreta. por mais que o estupro possa dar á sexualidade seu significado (genereficado), ela não é medida igualmente e armada além de um escopo estreito e binário de gênero.

dito sem rodeios: o estupro é uma função da morte social. ser estuprado não é diferente de tortura, pois o estuprado é colocado além dos limites da lei, norma, ou simples cuidado. ser estuprado é estar em um ponto de objetivação absoluta, limites não apenas violados, mas arrancados inteiramente, tornados sem sentido. nenhuma ajuda chega, nenhuma linguagem existe para comunicar ou reconciliar a própria dor porque se está no ponto em que a normalidade produz, contém e torna o excesso operativo, o silêncio e o incomunicável. no entanto, está não é experiência constante de uma classe monolítica de "mulher"; para muitos, é possível ser visto como contaminável, ter uma pureza considerada digna de proteção contra transgressão e, portanto, tal excesso é medido como moderação e discretamente. é só às vezes que o estupro de alguém até carrega o nome ou o significado de estupro, e onde é inominável e institucionalizado como nas prisões onde é transformado em piada, ou nos muitos infernos privados onde se é sempre "pedido por isso". repetidas vezes em momentos históricos de genocídio e colonização, o estupro em massa emerge como um princípio institucional e, em um movimento semelhante, embora não contíguo o estupro é prescrito em quase todas as sociedades modernas como um meio de normalizar corpos desviantes. essa morte ronda a sexualidade da sociedade civil. é a diferença que estabelece as necessidade de desejo patriarcal não-eu, não-masculino, não-sujeito, não-mulher, de modo que tenha um objeto sobre o qual agir. da mesma forma, o trabalho de gênero e a identidade de gênero existem apenas em relação a esse não-ser, até certo ponto vivendo fragilmente com ele, em silêncio parcial e produtivo e, até certo ponto, mudando essa violência para outro lugar.

modificando nossa primeira afirmação estupro está implicando em todas as formas de sexo, e perceber estupro corretamente como um escândalo põe em questão o fundamento de toda forma de sexualidade. normativo, o sexo civil é apenas uma parte de um sistema que tem como base o estupro, como princípio central de funcionamento. a integridade imaginada do sujeito perfeitamente consentido equivale a pouco mais do que um princípio regulados do estupro, uma pureza a ser defendida contra um outro ameaçador. o que não quer dizer que asserção da dignidade, do direito de não ser estuprada, por aqueles negados não é um movimento frequentemente necessário, que vale a pena. pelo contrário, o feminismo precisa ser cauteloso ao cair em um conservadorismo cultural que identifica o estupro como exógeno ao sexo e ao social, como uma doença a ser cortada. desafiar o estupro é desafiar todas as concepções de sexo e de corpos que dispomos; desfazê-lo seria arrancar milhares de anos da sociedade, do que pode muito bem ser o início da civilização.

vii — movimento

a posição do feminino: ela é fodida, ou espancada, ou ignorada até ser louca e como uma louca que acredita no amor. para experimentar a contradição, o corpo violentamente rasgado e desautorizado tanto a vida quanto a morte, desenvolve-se em nós "um heliotropismo secreto", uma volta em direção ao bem ausente. na fantasia roubada entre tarefas sem pé nem cabeça, ela imagina um mundo onde seus abusos acabaram. sua loucura é dada vazão nos médiuns rigidamente controlados disponíveis ativismo, alcoolismo, autoajuda, religião. em breves momentos a loucura transborda para o êxtase, mas em sua maioria são ininteligíveis para este mundo, e passam despercebidas. eles crescem cada vez mais distantes, a dor por eles cresce, ela se torna amarga.

o celibatário existe na outra extremidade deste, uma reação ao feminino bem que assume um caráter paradoxal, anseia visceralmente superar-se. ao exigir o bem com tanto fervor, o mundo se torna repugnante. cada pau inspira doença, cada foda é apenas uma lembrança da terrível distância entre corpos. seu amor, incapaz de descansar e se desligar deste mundo, ainda cresce para rejeitá-la e exigir perfeição. as histórias de outras "moças sérias" se repetem, com o desejo de se separarem, de expressarem amor apenas ao que é maior e além de qualquer aproximação.

se não for colocada para trabalhar nos papéis esperados da séria e frígida  — slut shamming, administração, humanitarismo raso isso se torna uma ameaça. no plano material, há cessação do trabalho reprodutivo, uma solidão que se recusa a validar o homem, ou fazer seus bebês, mas esse acúmulo muitas vezes excitante e necessário de pequenas recusas não consegue abordar sozinho a amplitude do patriarcado. fode ou não pode, o mundo nos lembra o que somos para ele. abandonar o sexo é, na melhor das hipóteses, um privilégio glorificado. talvez a maior parte da ameaça do celibato esteja em um afeto ou comportamento mais amplo, no ascetismo e no separatismo como uma vontade de greve de gênero.

na falta de meios para descansar em isolamento, para ser paranoico, o celibatário é em vez solitário. sara ahmed escreve como a solidão, em sua socialidade, engendra o desejo lésbico à medida que nos estendemos a novos espaços. "desejos lésbicos nos movem de lado"; o desvio de um porte ou desejo lésbica, ou sua perversão, nos coloca em contato com outras pessoas que compartilham sua inclinação. a solidão, que é desamor mesmo, é a dor de não poder estar presente, nos faz habitar nossos corpos de forma diferente. em sua forma mais radical, a dor da solidão se relaciona com uma presença ausente além de qualquer compreensão ou memória, como o discurso do que sente o indizível, onde não permanece, ou melhor, não pode permanecer preso nos laços auto-calmantes e heterossexuais destinados a ele, pode se tornar uma questão de engajamento político. o celibato então se manifesta como um afeto "lésbico", que nos move pra uma proximidade com outros que experimentam a dor do não-homem. é inebriante ver quantos outros entendem quando você diz "odeio sexo e não quero mais", como a agorafobia se torna coletiva e, portanto, outra coisa inteiramente. ecos do feminismo radical dos anos 70; lesbianismo como compromisso afetivo com uma comunidade ausente para mulheres e com aquelas que também estão em busca dela. retiramos nossa energia emocional do desejo masculina na esperança de que possamos nos mover de forma diferente.

mas o fracasso central do separatismo lésbico foi o quanto ele acreditava que poderia estabelecer uma comunidade pura e autêntica centrada na mulher. á medida que as ações dos indivíduos se tornaram indicativas de uma totalidade essencial, uma verdadeira identidade, as normas passaram a ser investidas de uma seriedade mortal. cada gesto foi classificado de acordo com sua capacidade de ser propriamente "identificada-como-mulher" e uma teologia feminista não dessemelhante ao puritanismo surgiu. assim como os puritanos sentiram que a graça de deus se manifestava através de uma adesão rigorosa e racional à lei, a identificação da mulher tornou-se uma pureza que se expressava através da fala adequada, da práxis adequada e do sexo adequado. a vergonha e o isolamento que engendraram a comunidade lésbica voltaram a ser repugnantes ao se tornar uma ferramenta de afirmação da pureza dos eleitos, ao ser voltada para uma reafirmação deste mundo.

devemos evitar cair nessa armadilha, e por isso devemos sempre ter em mente que o corpo celibatário não é mais puro, nem mais feminista, nem menos explorado. assim como a recusa de comer carne não faz nenhuma diferença para a base material da agricultura industrial, nossas recusas de foder, tanto quantos nossos desejos de foder de maneiras diferentes, não quebram a base material do patriarcado. eles podem gerar uma melhor qualidade de vida ou mais agência para indivíduos ou comunidades, mas esses modelos liberais de "resistência" não oferecem nada no caminho de uma ruptura total. esse é o impasse enfrentado pelo feminismo radical: os gestos proliferam, mas só apontam, jamais, para a abolição do gênero, relaceando olhares tão próximos mas nunca chegando ao momento da verdade.

nossa dor não pode ser reconciliada, pelo menos não apenas por nossos esforços. e ainda assim é irredutível à tristeza, à simples incapacidade de agir, nem à introspecção. ele "é um chamado não apenas para um rolamento atento, mas para um tipo diferente de habitabilidade. é um apelo à ação, uma demanda por políticas coletivas, como uma política baseada não na possibilidade deque possamos nos reconciliar, [...] ou aprender que vivemos com e ao lado uns dos outros, e ainda assim não somos como um só."

o que EU ou qualquer um pode oferecer não é verdade, o caminho para algum momento grandioso, uma final de superação. mover-se sem isso não pode ser um programa, mesmo que às vezes seja estratégico, não pode ser moralmente mandatado, embora certamente envolva ética. prakash kona escreve, "os despossuídos da história não são guiados pelo método, mas pela loucura"; o que nos guará não é um anseio abstrato, mas a necessidade enlouquecedora, material e imediata de algo tão impossível e sobrenatural quanto a libertação. aí está a verdade da trégua de 24 horas de dworkin onde não há estupro; não seus ideais de mente elevada, mas sua absoluta necessidade e absoluta impossibilidade. não tenho certeza de como proceder; minha esperança é que a divulgação desta vida, sua formação através do contato, seu movimento através de livros e histórias, ofereça algum auxílio na vida e nas lutas dos outros.

não deixo ninguém tocar na minha buceta, ou nas minhas tetas. deixo de tocar a dos outros. principalmente eu apenas bato, mordo e arranho e sou atingida, mordida e arranhada, mas nunca com homens. eu fico muito agarradinha com minhas amigas. eu pergunto antes de fazer a maioria das coisas com o corpo dos outros e peço que as pessoas façam o mesmo comigo, ou peço para parar, ou gritar muito com elas, talvez com ameaças de morte. trabalho assalariado é difícil de conseguir e eu sou bonita e jovem, então eu consigo um emprego como uma profissional do sexo com um chefe feminista que me paga muito bem. eu me autodestruo de maneiras menos assustadoras, menos incontroláveis. escrevo ensaios e leio livros, converso com meus amigos e falo o que passa pela minha cabeça o mais alto que posso e tento evitar pessoas que não se importam em ouvir. talvez esteja dando certo porque sei que não sou livre e ainda quero morrer, ainda quero que tudo no mundo seja outra coisa inteiramente, mas posso virar minha miséria para fora e sentir que tenho poder o suficiente para arrastar algo importante comigo. acho que se eu o fizesse ter mais livros e uma cena radical e merda eu estaria mais bêbada e louca e mais anoréxica e talvez eu afundasse tão forçosamente que faria "homem" e "mulher e "transexual" lugares mais assustadores e menos estáveis para se estar. imagino que outras pessoas farão coisas diferentes e dirão coisas diferentes e justificarão suas vidas de maneiras diferentes e não me importo muito. tudo o que quero para eles é destruir algumas coisas e não atrapalhar a destruição de tudo. "destruição" não está muito certo; o patriarcado destrói o suficiente e confundir destruição com comunização é mortal. "descriar", "desfazer", "tornar impossível" este mundo de merda.

pornô queer ainda é um saco porque ainda é pornô e são pedaços de nossos corpos cortados e mercantilizados e é mais um estilo de vida com outra identidade sendo criada por nós e vendida para nós. é uma agitação menos fodida e acho que é divertido assistir às vezes, mas estou farta de ouvir que uma maior representação significa que está tudo bem. não quero ser estigmatizada por trabalhos sexuais ou fazer muito sexo, mas não quero ninguém agindo como se não fosse mais um trabalho, mais exploração que está sempre em um momento do horror, mais capital, mais tristeza e tédio e vidas desperdiçadas em tempo morto.

acabei fazendo parte desse mundo separatista gay e algo nele parece importante. sei lá o que parece. não é a verdade, nem divina, só meia verdade, só mentira, só humana. mas é como uma comunidade, ou algo mais difuso e incapaz de ser fixado nenhum de nós escolhei estar aqui, mas nos encontramos atraídos juntos por essa contradição. amar a deus, odiando tudo o que não é verdadeiro como ele e envolver-se em uma mentira constante e frenética. "é melhor que eu ouça o que não é verdade para você do que nada". afeto lésbico ou ética queer ou algo assim, um pouco juntos e igualmente incertos sobre o que poderíamos fazer. e enquanto nós descobrimos que ficamos loucos, começamos a foder e lagar nossos empregos e nos recusamos a foder ou ter tipos mais estranhos de sexo. ou qualquer coisa, na verdade. eu tento fixá-lo para baixo, mas tudo o que posso fazer é falar em torno dele. essa união dos agorafóbicos, da periferia e do privado tremendo e gemendo enquanto empurramos contra ela.


(a postagem original é acompanhada de uma bibliográfica bem extensa tanto para complementar o que está sendo dito quanto para respaldar o que foi citado ao longo do ensaio, é um texto bem denso e um tanto quanto confuso, algumas passagens tenta-se explicar um ponto de vista para no instante seguinte essa ideia ser virada ao contrário, assim como é pautado muitos assuntos e vivências que, em geral, são bastante estado-unidenses. confesso que foi bem estranho traduzir as últimas partes porque foi como ler, em algum dos parágrafos, que o estupro estaria sendo relativizado, enquanto em outros a crítica era pontual e certeira. enfim, é um ensaio que discute um assunto bem pertinente e interessante quanto as relações de poder em uma sociedade patriarcal e capitalista... o lies journal carrega ensaios na mesma linha, textos poéticos, desabafos, quase tudo! penso que pode ser interessante trazer o coletivo traduzido, mesmo que na metade do processo eu desgoste, não vou parar até que tenha tudo completo. ele conta com dois volumes completos na internet, mas só o primeiro volume foi publicado no site, o segundo está disponível apenas em pdf. espero que a experiência de ler e trazer o lies journal para cá seja boa.)

colheres de mesa: tempo perdido

 aquele coelho cinza, de tecidos escuros e jóias no rosto, carregava consigo um tesouro que eu tanto escondi. em seus braços tinha o coração...