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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

colheres de mesa: tempo perdido

 aquele coelho cinza, de tecidos escuros e jóias no rosto, carregava consigo um tesouro que eu tanto escondi. em seus braços tinha o coração-pulsante e ele era meu. o coração-pulsante era meu. lembro de perder as veias que o seguravam aquela noite, não tinha tempo para voltar, eu não poderia voltar. precisei correr para longe daquelas batidas rítmicas, temia que minh'alma fosse levada se eu desse ouvido àquela música e eu não devia, mas fugi. esqueci que um dia aquele pulsar existiu, vivi com o vazio no peito sem me lembrar que bombeava meu sangue, estagnei. o que foi escondido é o que se escondeu, eu pensava, mas ver nas patas escuras o que eu deixei de me lembrar e escondi no fundo da memória, foi uma tempestade. não pensei que fosse possível sentir outra vez aquela ânsia em ter de volta o que um dia foi meu, estremeci sem saber se me aproximava. aquele coelho cinza, eu sabia quem era. seus olhos castanhos e pelugem cinza escura, as vestes pretas. um roedor que habitava minhas lembranças e sonhos, talvez fosse dele quem eu estivesse fugindo a princípio, deixando o coração-pulsante como uma maneira de escapar daquilo. era ele quem cantava os batimentos e ditava meus bombeamentos, o sangue que percorria por minhas orelhas era o mesmo que eu o ofereci debaixo da lua-cadente. ele o trouxe de volta, e por quê? tantas as noites que ignorei seus chamados, tantos os sonhos que afastei para não ver seu focinho outra vez e agora ele estava aqui, na minha frente. pensei que ao deixar para trás, eu não teria de encarar isso, achei que pudesse ignorar e esconder, não pude, ele me encontrou e trouxe de volta o que havia sido prometido entre nós, à luz da lua-cadente. eu não fugiria, não dessa vez. 

colheres de mesa: tempo perdido

 aquele coelho cinza, de tecidos escuros e jóias no rosto, carregava consigo um tesouro que eu tanto escondi. em seus braços tinha o coração...