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quinta-feira, 17 de setembro de 2026

colheres de mesa: tempo perdido

 aquele coelho cinza, de tecidos escuros e jóias no rosto, carregava consigo um tesouro que eu tanto escondi. em seus braços tinha o coração-pulsante e ele era meu. o coração-pulsante era meu. lembro de perder as veias que o seguravam aquela noite, não tinha tempo para voltar, eu não poderia voltar. precisei correr para longe daquelas batidas rítmicas, temia que minh'alma fosse levada se eu desse ouvido àquela música e eu não devia, mas fugi. esqueci que um dia aquele pulsar existiu, vivi com o vazio no peito sem me lembrar que bombeava meu sangue, estagnei. o que foi escondido é o que se escondeu, eu pensava, mas ver nas patas escuras o que eu deixei de me lembrar e escondi no fundo da memória, foi uma tempestade. não pensei que fosse possível sentir outra vez aquela ânsia em ter de volta o que um dia foi meu, estremeci sem saber se me aproximava. aquele coelho cinza, eu sabia quem era. seus olhos castanhos e pelugem cinza escura, as vestes pretas. um roedor que habitava minhas lembranças e sonhos, talvez fosse dele quem eu estivesse fugindo a princípio, deixando o coração-pulsante como uma maneira de escapar daquilo. era ele quem cantava os batimentos e ditava meus bombeamentos, o sangue que percorria por minhas orelhas era o mesmo que eu o ofereci debaixo da lua-cadente. ele o trouxe de volta, e por quê? tantas as noites que ignorei seus chamados, tantos os sonhos que afastei para não ver seu focinho outra vez e agora ele estava aqui, na minha frente. pensei que ao deixar para trás, eu não teria de encarar isso, achei que pudesse ignorar e esconder, não pude, ele me encontrou e trouxe de volta o que havia sido prometido entre nós, à luz da lua-cadente. eu não fugiria, não dessa vez. 

terça-feira, 5 de maio de 2026

001: a cidade que morre.

 a única ponte que separava as cidades parecia balançar com o vento. ela era feita de concreto, uma fundação de décadas em contato com o fundo mais profundo do mar cortante, as poucas cordas metálicas ainda penduradas ao céu restavam como sobreviventes àqueles terremotos estranhos. para quem morava ali, separados de todo o resto, o horizonte parecia aterrorizante, de longe se viam os grandes cogumelos de fumaça surgindo num instante e lentamente dissipando, eles demoravam para sumir e tinha dias que o céu estava repleto deles.

matteo passava suas tardes e noites sentado naquela areia cinzenta. as ondas traziam quase tudo, entulhos apareciam dia sim dia não e as cinzas eram constantes, as chuvas noturnas que costumavam ser o frescor da manhã agora carregavam o peso de carcaças desconhecidas. a janela de matteo acordava com respingos estranhos em tons avermelhados e amarronzados, demorou muito tempo para que ele percebesse que eram os restos das pessoas do outro lado da ponte.


a ventura de morar em civita di bagnoregio consistia unicamente em estar isolados no meio do oceano com apenas uma ponte de ligação, essa que passava a maior parte do seu tempo coberta por profundidades intensas de água. o país inteiro estava em guerra, sendo consumido por fogo e explosões intermináveis, a esperança de um fim não se aproximava e a previsão era de que somente restasse cinzas e ossos, a ganância consumia uma nação inteira.


a cidade que morre era um apelido para esse povo que se perdia em meio às águas. matteo não entendia o porquê de sempre serem colocados assim, ainda mais agora que morrer pelo mar era o que estava salvando cada um deles. as bombas dificilmente chegavam na encosta, derrubaram pedaços da ponte e fizeram tremores derrubar alguns pequenos prédios, mas as pessoas continuavam em pé e as mesas tinham comidas saborosas todos os dias. 


matteo escreveu com os próprios dedos na praia de cinzas: “a cidade que vive.” 

colheres de mesa: tempo perdido

 aquele coelho cinza, de tecidos escuros e jóias no rosto, carregava consigo um tesouro que eu tanto escondi. em seus braços tinha o coração...