quinta-feira, 2 de julho de 2026

entre quadros e anéis

​ não consigo me desfazer de tantas coisas. as memórias são o que me perseguem e moldam quem eu sou, ainda que eu tenha de olhar para coisas que machuquem. 

guardo comigo tudo e mais um pouco, é difícil de dizer adeus. tenho o hábito de criar carinho por tudo aquilo que eu ganho de quem um dia eu amei e, talvez, por isso seja impossível querer que aquilo vá embora.

acordo todos os dias olhando para um quadro que eu pensei que odiaria. a memória é amarga e desce queimando a garganta sempre que retorna, depois de um tempo aquilo se tornou parte de quem eu sou e não me vejo sem. é doloroso, mas continua pendurado na parede como uma parte do meu passado e de quem fui.

além de tantas outras coisas. a minha caixa de joias carrega os itens mais valiosos dentro dela, tantas coisas que eu escolhi e ganhei. não penso em deixar para trás nem o menor brinco. no meio de tantas coisas eu tenho uma pequena aliança de folhas verdes que serviu para representar uma promessa, que eu mesma precisei quebrar para poder seguir em frente, é algo que eu deveria ter jogado fora e atirado ao mar quando tive oportunidade, ainda assim continua em meu porta anel, ocupando seu espaço.

algumas camisas que eu pensei em me desfazer acabaram ficando e sendo transformadas em outros modelos. pensei em jogar fora, dar para alguém, ou usar de pano de chão, mas elas são únicas e o único motivo para eu ainda continuar usando é pelas bandas que tanto ficam felizes em ver suas logos nos shows.

ainda penso se deveria me desfazer dessas memórias, mas elas são o que me fizeram ser eu.

o silêncio me consome e tenho medo dele

 tenho criado discussões sozinha. é delirante estar em silêncio depois de tanto tempo acostumada com o silêncio, ainda não sei nem como colocar em palavras o que tenho sentido por conta disso. é loucura completa. tenho escrito meus pensamentos em um bloco de notas há um mês e ele tem crescido cada vez mais porque eu penso e penso quase o tempo todo desde que substitui o barulho constante pelo som do mundo afora, ainda não sei como agir diante dessa mudança.

ficar em silêncio é o que mais tem me causado sofrimento, precisar encarar a mim mesma e tudo o que se passa pela minha cabeça corrói um pouco a minha alma, mas entendo que é mais do que necessário passar por esse transtorno. é um processo doloroso, olhei diretamente para tantas inseguranças e medos que eu não me lembrava de existir.

estou sendo consumida por ele e tenho medo, medo de enfrentar as coisas que estavam escondidas de mim, abafadas por tantos barulhos e vozes diferentes. não tenho mais conseguido ouvir músicas com fones de ouvido, nem de passar meia hora com a televisão ligada passando alguma bobagem qualquer (faz tanto tempo que deixei de assistir master chef porque parecia tão entediante ver as mesmas coisas acontecendo de novo e de novo e de novo).

talvez por encarar esse vazio, o tédio e o nada que é estar em silêncio foi o que me fez ter tantos pensamentos referentes ao mundo digital e minha presença nele. tenho lido tantos artigos e livros sobre o assunto que, acho, acabou piorando a minha espiral dentro da convivência com meus próprios pensamentos. 

até onde posso ir? até onde posso deixar o silêncio me consumir?

quarta-feira, 1 de julho de 2026

agatha renard

 uma das minhas primeiras leituras intensas foi, por acaso, uma indicação da marisa durante a aula. ela explicava sobre como um quadro exposto em museu havia mudado sua vida inteira e a forma como ela enxergava as coisas, foi como encarar um dos livros que a acompanhavam no dia a dia. uma composição única e interessante, diferente de tantas outras pinturas que estavam ali, o ambiente era arrumado de propósito para que tudo fizesse sentido e intensificasse a vivência. 

o quadro não era uma grande loucura, mas era um escândalo para quem olhasse. coberto por uma cortina vermelha, escondido no fundo de o corredor, ele escondia um segredo e uma privacidade tão íntima que era estranho se esgueirar só para ter um pequeno vislumbre. o corpo humano em seu estado mais cru, de uma forma tão natural.


a origem do mundo de gustave courbet é fantástica. o corpo feminino como um todo, com cores, dobras e pelos. o nome resignado é tão intenso quanto o que vemos, não sei dizer se ele ainda está escondido através de alguma cortina, mas o choque em vê-lo continua tão grande quanto se fosse visto sorrateiramente. é lindo e único.

o que eu quero dizer com tudo isso é que... eu não me lembrava desse quadro, muito menos de como ele estava exposto até eu me colocar em uma situação que desse um enorme estouro na minha mente. eu não entendia o porquê de colocarem o quadro como se fosse um tesouro, um choque tão humano.

isso é, até eu me esgueirar feito rato entre as pessoas para assistir a apresentação da agatha renard.

o lucas decidiu ir para esse pequeno rolê junino de um coletivo queer. fazia tanto tempo que eu falava para ele sobre querer ir em um desses, queria me sentir em casa de novo. dito e feito. eu só não esperava me deparar com uma das coisas mais linda do mundo inteiro diante dos meus olhos, de uma forma tão artística com uma experiência indescritível.

a agatha entrou carregada, com uma longa cauda de seria e cordas. era difícil dizer o que estava por vir, mas era intrigante. impossível de desviar os olhos. a arte drag sempre tem o peso de um lipsync carregado nas emoções, tanto mostrado pelo rosto quanto a forma como seu corpo se move e ela era, sem querer encher a boca para falar, intensa até nos minímos detalhes.

me senti como um enorme pervertido procurando espaços maiores entre as pessoas para olhar com ainda mais atenção quando vi seu corpo inteiro e nu. depois de muito tempo eu entendi o que coubert tentou fazer com seu quadro, eu estava diante de uma réplica moderna.


sábado, 6 de junho de 2026

ciúmes, acho que tenho?

(coloquei para ser publicado como se fosse há meses atrás, não sei se alguém vai realmente ter a coragem de chegar até aqui para ler as coisas que eu escrevo, pelo menos a pessoa que direciono essas palavras nunca vai fazer isso e me entristece que isso seja verdade. esses sentimentos não existiriam se algumas coisas fossem diferentes, mas não sinto vontade de mudar o que está acontecendo e nem de cobrar por uma melhora, ninguém deveria cobrar por algo. vi em um vídeo uma mulher falando sobre esse mesmo assunto, não tem porque eu exigir por uma coisa que deveria ser feita naturalmente, se a pessoa não faz isso agora por vontade própria, ela só vai começar a fazer porque eu pedi e o sentimento daquilo ser feito a partir do desejo interno não existe, e em vez disso a sensação de que isso só acontece por uma súplica é que fica no lugar. não penso que seja confortável, prefiro viver com o vazio de uma atitude inexistente do que com algo que foi mecanicamente imposto).


antes eu tinha dificuldade de entender o porque dessas coisas, ainda não consigo digerir totalmente como as coisas se constroem dentro de mim, se eu soubesse acho que eu não estaria aqui escrevendo, ou melhor: eu não estaria escrevendo essas coisas de forma escondida, colocando os sentimentos por debaixo do tapete com uma longitude o suficiente para que ninguém realmente leia o que tanto me desestabiliza. eu coloquei coisas piores em textos desse lugar, mas admitir que tenho ciúmes de alguém parece uma loucura ainda maior. pensei que se eu colocasse para fora, eu conseguiria dormir melhor e encarar a situação de uma forma mais sensível, sem tantos extremismos. parece que estou encarando meu próprio reflexo quando olho para ele, será que é por isso que crio tantas dúvidas? eu não confio em mim mesma? eu realmente não sei responder. queria poder dizer que sou íntegra, sem o que desconfiar, mas sou tão ruim quanto qualquer homem e é isso que me assombra. depois de sair daqui provavelmente vou mudar completamente como meu posiciono em algumas situações, talvez seja até por isso que eu tenho tanto medo. recentemente eu mudei a senha do meu celular (isso faz alguns meses na verdade) porque a última vez que minha mãe esteve comigo, dormiu no mesmo quarto que eu, encontrei meu celular pela manhã como se alguém tivesse lido as minhas mensagens com meu namorado e eu escondo um fato doloroso de todos, algo que só eu (e mais uma pessoa de extrema confiança) sabemos como se sucede. a verdade é que eu passei a ter medo. eu nunca sei quando vou receber alguma mensagem ofensiva sobre meu estilo de vida, ou a forma como eu sou. então eu escondo essas coisas, porque é difícil de entender que não é culpa dele a maneira como as mensagens são escritas e, alguma dessas vezes, ele está certo. ainda tenho muito o que amadurecer e metamorfosear, ainda assim não é todo mundo que leria essas coisas com o mesmo cuidado e paciência que eu, fiquei com medo da minha mãe ter lido as mensagens e não consegui ficar calma o dia inteiro. achei que alguma coisa poderia explodir, que tudo iria por água a baixo e eu estava na boca do lobo, mas nada aconteceu e tudo seguiu como sempre seguia. a diferença é que de uns dias para cá ele tem evitado me mandar mensagens bêbado e parece que ele se deu conta de algumas coisas que falava, como elas soavam e como isso chegava até mim, pode ser que isso tenha mudado, mas eu não sei. não vou encher o saco dele quanto essas coisas, ele sabe o que a bebida causa, tem 25 anos e é bem crescidinho para ter noção de como se comportar. eu mesma ingressei nesse relacionamento sabendo como ele é, não tem porque eu querer mudar as coisas, isso tem que partir dele mesmo. talvez eu esteja tentando justificar de onde vem meu ciúmes, mesmo eu sabendo que não tem como, é tudo resultante de inseguranças minhas. eu me sinto sozinha, deixada de lado e esquecida, penso que dentro desses fatores ele tem desistido da gente, quando ele estava bêbado (uma das últimas vezes que ele me mandou mensagem assim), ouvi dele que ele não pensava em um futuro, mas no presente. isso me deixou quebrada. não acho que seja ciúmes o que eu tenho, mas medo de que eu tenha entrado em outra furada sem perceber. não estamos construindo nada juntos, é o que parece. me assusta tanto. eu deixei bem claro que só ingresso em um relacionamento pensando que a relação vai ser pautada em companhia e parceirismo, que as coisas se enlacem juntas e criem algo novo, respeitando nossas individualidades, mas não pensando somente nelas. alguma coisa mudou nesses oito meses. eu não consigo dizer o que é, mas sei o quanto tenho me sentido sozinha, eu estou vendo ele frequentemente, dormido com ele, mas do que adianta? do que adianta se eu não represento nem um porcento do que é amor na vida dele? do que adianta se eu não sou nem colocada como alguma amizade para ele, parece que se a gente terminar nada vai ter existido e de nós não vai ter sobrado absolutamente nada. eu cansei. sinceramente cansei, não sinto mais aquele amor, sinto tédio. estou entediada. cansada. eu não sinto ciúmes no sentindo dele ficar com outra pessoa, mas no caminho de que eu também gostaria de estar recebendo as atenções e risadas, gostaria também de estar sendo procurada, de ter mensagens, conversas. não tenho e não terei. quero sumir. desaparecer. eu construí um mundo inteiro ao redor disso, criei forças para movimentar e fazer planos, projetos, mas nenhum deles me faz ter vontade de continuar. eu gostaria de me esconder e voltar ao ponto onde nada me importava além de livros e livros, eu não sinto paz, não sinto tranquilidade. estou em guerra constante comigo mesma, disputando por atenção, querendo ser procurada e quista. não quero mais. quero me fechar. me esconder. o medo que eu tenho é doloroso, dói meu peito, aperta minha garganta e me faz chorar todas as noites pensando que eu escolhi errado, me faz questionar se eu deveria estar mesmo aqui, se eu não deveria voltar para a casa dos meus pais, procurar um emprego e viver de merda. parece que meu sonho está distante, longe. eu só quero me formar, trabalhar com livros. o sonho de um casamento eu destruí, acabei com ele! achei que fosse acontecer, que eu tinha alinhado pensamentos com alguém, mas estou aqui escrevendo todas as formas como eu me auto-mutilo mentalmente por ter tantos pensamentos desgraçados. a culpa foi minha por ter escolhido alguém sem pensar direito antes? eu conhecia ele, eu sabia quem ele era, a gente conversava, por um ano eu deixei ele em banho maria, não escolhi sem pensar, mas acho que não percebi que me colocaria em uma posição de questionar tudo outra vez. eu estava pronta para um relacionamento? acho que estava, ainda estou. me relacionar não assusta. mas a inconsistência dele sim. em algum momentos eu encontro o que um dia foi, em outros nem tanto assim. eu escuto tantas coisas boas, vejo atitudes incríveis, mas em contra partida, parece que o que eu ouvi de ruim tem pesado na alma. eu não sinto ciúmes, só vontade de estar no centro das atenções mais uma vez. eu gostaria de ser colocada em um pedestal de novo, ser adorada e idolatrada. era tudo o que eu mais quero, me ver como alguém importante e inteligente, estou sempre tão para baixo, sempre vendo o meu lado ruim, que acabo sentindo saudades de ouvir reafirmações. é algo que eu preciso. não quero buscar elogios como quem necessitado disso, mas parece que estou precisando correr atrás de algo. falando sério, eu dissertei sobre como me sinto mal e sozinha nesse relacionamento, vivo falando sobre os lados ruins que me chateiam e quebram pedacinhos dentro de mim, chegou num ponto que amigos meus começaram a desgostar dele por tantas vezes que eu precisei desabafar sobre situações desagradáveis, mas tenho que me recompor e me redimir, ele não é uma pessoa ruim, não fico infeliz por namorar com ele, é como se eu estivesse navegando em mar aberto, as ondas vão e voltam, vão e voltam. é assim que funciona, as coisas tem seus altos e baixos. tenho a mania de focar em pontos ruins, sou melancólica demais e tudo que é deprimente parece três vezes maior, eu admito, se eu parasse um pouco para pensar e falar em voz alta, metade dos problemas iriam desaparecer. ele é um bom namorado, lembra de mim mesmo quando a mente tá em um turbilhão, me procura e me acalenta, tem paciência comigo (e eu sou uma pessoa difícil demais). os momentos que temos juntos são bons, eu dou risadas gostosas, a gente se diverte e se conforta, me trata tão bem. não sinto vontade de terminar, de sumir com ele, de acabar com tudo, eu só gostaria de ter mais esse olhar sobre mim. é uma necessidade de ter atenção engraçada, consumista. sou carente, preciso ser alimentada, ou adoeço e é aí que mora o problema. se não sou regada com frequência, vou murchando até secar. 

colheres de mesa: tempo perdido

 aquele coelho cinza, de tecidos escuros e jóias no rosto, carregava consigo um tesouro que eu tanto escondi. em seus braços tinha o coração...