terça-feira, 15 de setembro de 2026

cartas para l: paranoia e visões

 cartas para l: paranoia e visões
nessas palavras trocadas entre mulheres que até então permaneciam mudas, algo havia tomado forma que permaneceria parte da tradição feminista: uma certa relação íntima e familiar com a esfera do perceptível, um ir e vir entre concretude e abstração que trincava a superfície lisa dos discursos que legitimam o poder. - fc, sonograma de uma potencialidade.
a sociedade nos adoeceu, vamos dar um golpe mortal na sociedade! - sozialistisches patientenkollektiv (spk)

 i.

querida l,

dividimos a cama, lemos juntos no café. debaixo da mesa você aperta minha mão quando m diz algo sobre dar a outra face. tomo como uma promessa ou um pacto, um sinal de que teremos nossos próprios segredos. sentamos um ao lado do outro no chão no primeiro encontro e vejo o quanto você gosta quando riem de suas piadas. vejo sua felicidade se desdobrando como papel amassado.

querida l,

não sei porque deixou b te tratar dessa forma. eu sei que ele odeia mulheres. sei que ele trai a esposa, e tira a aliança quando vai aos bares, e sei que tentou dormir com uma de suas alunas na minha festa. sei que ele queria dormir comigo naquela noite na cidade, quando me pediu no seu hotel.

disse que seus poemas eram medíocres, e você chorou, mas não sei porque você ainda o respeita.

querida l,

você fica na minha nova casa quando não tem trabalho no dia seguinte. saímos para comer burritos e filmes à meia-noite. ou eu cozinho e você lava a louça; você diz por que se dar ao trabalho de tentar cozinhar quando é só mais uma coisa em que você vai ser ruim?

sei que pensa em mim como alguém normal demais, alguém para quem as coisas se resolvem fácil demais. você tem o relacionamento perfeito, você diz, mas raramente você pergunta como estou, e raramente toco no assunto.

querida l,

estou aprendendo a segurar a língua quando você briga com a m porque sempre se reconciliam. ele te liga cinco ou seis vezes por dia ás vezes, ele precisa de algo de você. ele sabe que algo está acontecendo, pode ver que tem coisas que você fala comigo que você não conta. ele sempre quer ouvir sobre os encontros mesmo sabendo que é melhor não perguntar diretamente.

querida l,

eu poderia estar imaginando, mas você pareceu arredia no último encontro. você pintou o cabelo de mais escuro e eu te complementei no estilo, mas você parecia insegura. você disse que largaria o cigarro.

não entendo porque você saiu de fininho cedo, com uma despedida rápida, ao invés de passar a noite como havíamos planejado. consegui uma carona de última hora de volta para casa, você disse, e é melhor eu pagar. mas eu poderia ter levado você amanhã, eu disse.

querida l,

você parou de vir aos nossos encontros. eu sei, seu carro quebrou e seu horário de trabalho mudou, além disso, você sempre foi péssima em planejar qualquer coisa com antecedência.

fico imaginando que tipo de segredos você guarda, porque segredos você sempre guardou, por uma questão de aparências, e principalmente para evitar uma briga. eu acho que você está tentando se afastar de todas nós, as pessoas que reivindicam pedaços de você. você queria que a gente simplesmente se desse bem, parasse de chegar em você com ressentimentos e cobranças, parasse de te pedir para tomar partido.

querida l,

m é amigo de j e j é amigo de o e o é amigo de b e h. m e j estão escrevendo algo juntos, e m acabou de entrar para o grupo literário de j, que também conta com n e r. a está publicando uma peça na antologia de g, está em contato com o famoso p, e está lendo no fórum com o e j.

percebo porque escolheu o m, porque precisa dele, o que ele tem que não temos. eles têm tudo, nós não temos nada sem eles. sei porque parou de vir aos encontros.

ii.

ser feminista é ser paranoica. todos nos dizem que estamos lendo demais as coisas, que o que estamos vendo não está lá. há certos registros emocionais com os quais nos familiarizamos: cetismo, desconfiança, defensividade.

nossas reações nunca são proporcionais às ações que as precederam.

de um lado, o abstrato. homens estupram mulheres. ora a configuração é outra, ora a violência de gênero assume outras formas, mas o padrão permanece: homens estupram mulheres, mais e mais e mais e mais e mais.

por outro lado, o concreto. ele me estuprou. ele estava muito bêbado, e eu estava muito bêbada. ele deixou uma marca na minha coxa. sei que ele é enrolado, sei que algo muito ruim aconteceu com ele quando era criança, mas me disse que faz terapia.

nossa raiva é vivida pelos outros como desinteressante, como formuláica. Às vezes também nós ficamos entediados com nossa performance de indignação. eu, objeto, digo de novo e de novo, e minha boca dói.

mulher: aquela a quem se pede que resolva uma contradição irresolvível, ou a quem se coloca o ônus de ocultar sua irresolvebilidade, ou aquela a quem se atribui a culpa por sua falha em resolvê-la ou em escondê-la.

é este o mundo que você quer?, os outros perguntam. um mundo de julgamento, normas éticas e punição? não vê que isso não resolve nada?

a intensidade da emoção que expressamos — que parece tão excessiva a ponto de ser nomeada histérica, ou insincera — é resultado dessa contradição.

sabemos a fonte da radiação, sabemos onde ocorreu o vazamento. podemos medir os níveis no local, mas quanto mais longe chegamos do local, mais difusa e dispersa a radiação se torna. não sabemos como a força penetra formas de vida específicas, como altera sua composição ao longo do tempo, como contribui para uma morte lenta anos depois. sabemos que há uma relação entre a radiação e os destinos particulares daqueles expostos, — podemos detectar taxas anormais de doença — mas não podemos rastreá-la diretamente. a morte e a doença dispersas no tempo e no espaço aparecem como destinos puramente individuais.

é assim que as relações de gênero aparecem. irradiando, condensando, adoecendo.

não, esse não é o mundo que queremos.

mas não nos é possível evitar certos registros emocionais, certas posturas mundanas. a alternativa à raiva é o desespero, são tons de auto-obliteração sombrios demais para suportar.

não é que tenhamos abordado o problema de forma incorreta, mas que não existe uma maneira correta de tratar o problema. é a relação social que nos produz como mulheres com problemas, e como homens que criam problemas, esse é o problema.

viver como mulher é viver as consequências de uma contradição entre o privado e o social, o concreto e o abstrato, a especificidade de uma vida individual e o padrão geral que constitui a vida de um grupo.

abraçar os gestos da feminista é viver como uma paranoica, na medida em que as consequências sociais de perceber como real aquilo que toda a sociedade nega são as mesmas quer essas percepções seja ou não verdadeiras. a contradição se torna um segredo pessoal, algo que devemos fingir não perceber quando na presença de outro. as outros não há contradição. as reações individuais são proporcionais às ações que as precederam.

não há coisa, nenhum objeto chamado "a radiação", que possamos atacar. há apenas as formas de vida que foram expostas a ele, cujas células foram alteradas invisivelmente, cujos corpos foram indelevelmente marcados de maneiras que se desenrolam misteriosamente ao longo do tempo, casa uma distorcida à sua maneira.

não há coisa chamada "homens" que possamos atacar. há apenas homens individuais, há apenas instâncias individuais da violência, há apenas experiências específicas que acumulamos em todas as nossas vidas, cada uma única, mas de certa forma semelhante, como poeira em um peitoril, sedimentando lentamente.

espancamentos, processos de responsabilização, banimento, perdão: são formas diferentes que milieus tentam lidar com a violência de gênero. as surras não funcionam, os processos de prestação de contas não funcionam, o banimento não funciona, o perdão não funciona.

o fato de que às vezes uma mulher escolhe uma resposta violenta sugere que de todas as escolhas impossíveis dadas a ela, ela optou por aquela que expressa o grau real de hostilidade no nível do grupo social —, ou seja, a hostilidade das mulheres como um grupo vem de encontro com a dominação dos homens como um grupo.

o problema para as mulheres não é apenas descobrir o que é político no pessoal e o pessoal no político; é encontrar uma maneira de viver dentro de uma contradição na qual experimentamos simultaneamente a natureza concreta e abstrata das relações de gênero. essa maneira de viver é sempre insatisfatória, e é esse fato — o fato de nossa própria insatisfação, da impossibilidade de encaixar nossa vida dentro dos paradigmas que nos são dados por eles — que forma o material para nossa resistência.

em algum momento começamos a procurar outras sofrendo com a nossa condição. outros com quem nossas alucinações particulares podem ser reformulados como sociais, e com quem a impossibilidade de nossa posição forma o alicerce para uma espécie de compartilhamento entre as insanas.

é difícil confiar uma na outra.

em nossas terríveis comunidades, quando ficamos uma do lado da oura perdemos o acesso a certas pessoas, a certos homens e às pessoas com quem esses homens têm acesso. quanto mais laços cortamos menos importantes ficamos e mais laços perdemos. as linhas que correm entre nós, conectando todos os homens e os não-homens juntos, formam uma teia de lealdades e antagonismos, e começamos a aprender que colocar um ao outro em primeiro lugar tem consequências. brutalmente, aprendemos que, ao nos livrarmos de certos laços, nos tornaremos indesejáveis para os homens, e que isso nos tornará total e finamente invisíveis.

perderemos muitas de nossas amizades com mulheres.

não vão querer ser invisíveis, ou indesejáveis. eles verão como olhamos através dos olhos dos homens — feio, histérico, chato — e elas serão repelidas. elas vão parar de vir aos nossos encontros.

elas nos odiarão muito mais do que odeiam os homens; devemos estar prontas para isso.

iii.

querida l,

quando eu era uma garota, sonhava com uma paisagem que nunca tinha visto, e no sonho eu me movia através dela da esquerda para a direita, enquanto ela mudava de penhascos do deserto para terra rachada para um lago negro com uma ilha. o lago estava silencioso e a água estava tão quieta que parecia sólida. eu vi esse lago dentro de você e houve momentos em que seu silêncio me assustou e me manteve de volta. sempre tive medo de me aproximar das mulheres porque elas enxergam demais. elas podem ver a radiação e eu tive medo que elas vissem o silêncio dentro de mim, uma poça preta de água derramando sobre um lábio de cimento. os homens podem ser mais fáceis, sinto-me menos perscrutada, menos esfregada como pedra-pomes na pele crua. queria que fôssemos como duas novas amigas em recuperação, hesitativas, lidando uma com a outra gentilmente. queria ser compreendida e ser reconhecida sem ser nomeada selvagem e brilhante. as emoções se acobertando por dentro das paredes do meu corpo, ecos reverberando como sonar, o morcego do meu medo pressente tudo sem ver. asas se espalham dentro de mim, queria que você me visse e me conhecesse, mas não deu certo assim.

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