sábado, 5 de setembro de 2026

desfazendo o sexo: contra o otimismo sexual

(essa é a primeira tradução de um coletivo queer-feminista chamado "lies journal", o ensaio apresentado nessa postagem utiliza de teorias queer e feministas para se basear nas opiniões desenvolvidas, alguns dos termos citados podem parecer meio estranhos e diferentes, alguns até soam pejorativos, como o uso do sufixo -ismo quando se trata da comunidade lésbica, por serem retirados diretamente das teorias norte-americanas, procurei o mais próximo no português.)

desfazendo o sexo: contra o otimismo sexual​

I — começando

a história que nos é contada:

você está na beira da liberdade sexual; ela está aqui e a sua disposição. é pedido apenas que você ache ou faça. Se antes éramos feios, talvez sejamos bonitos agora — ainda assim, você precisa ser natural, inteiro e bom você foi traumatizado, mas pode se recuperar, simplesmente se possuir. é um trabalho para ser feito, mas um bom trabalho. trabalhe na sua vergonha e, quem sabe, até brigue com quem te envergonha, você vai ser livre. no final disso, você vai ser inteira e vai ter reconquistado seu prazer natural. é o direito de um homem foder e gozar. se sinta livre com seu corpo para fazer essas coisas, porque elas são boas. as feministas e liberalistas sexuais sabem disso e por isso o movimento acabou. cosmo e oprah sabem disso agora e consequentemente todos sabem. sexo é bom e prazeroso, é poderoso e é essa proposta que vai nos salvar da dor.

michael focault repete esse conto com todo seu fôlego: "algum dia, sexo vai ser bom de novo" no entanto, apesar de todo esse otimismo que ele aspira, ele existe perfeitamente com a realidade brutal da vida com gêneros. o estupro segue inabalável; a vida de muitas continua submersa em trabalho doméstico e reprodutivo. não é que esse otimismo seja simplesmente ineficaz, que foi apropriado e des-afastado por um sistema de repressão e deve ser salvo, mas sim que existe lado a lado com a vergonha e o silêncio, cada um jogando sua parte em uma ampla produção de sexo e gênero. se fosse radical e marginal afirmar algo essencial, ou simplesmente acessível, no bom de ter sexo, mas é central e institucional. longe de algum tipo de conjunto radical, é ao mesmo tempo uma ideologia do patriarcado e a maioria de seus oponentes, um disparate, uma coleção heterogênea de discursos unidos contra um único alvo. é o otimismo que insistentemente e cruelmente nos volta para o trabalho de foder.

esse otimismo é o que me posiciono contra. a sua história demanda explicação e eu anseio por imaginar uma política que apareça depois de abandonar esse apego pelo sexo completamente. se posicionar "contra o sexo" seria simplificar demais, em vez disso, experimento o sexo como um impasse à maneira de berlant: "desdramatizando o desempenho do julgamento crítico e político, de modo a retardar o encontro com os objetivos de conhecimento que são realmente cenas que mal conseguimos colocar nossos olhos ao redor." isso é, o sexo aqui não é como um inimigo a ser polemicamente confrontado, mas uma relação exaustiva exigindo exame, onde a dor e o peso do gênero são mais imediatos. meu projeto: ansiar pelo bem e sentir sua ausência, separando, historicizando, afogando-se nos fenômenos, "viajando no conteúdo", como chris kraus diz.

então, para esclarecer: eu não quero rejeitar uma parcela inteira do movimento feminista. dentre o posicionamento do "sexo-positivismo", até mesmo o otimismo sexual, tem gestos que seriam absurdos de se rejeitar — a historicização da sexualidade, desmitificando sexualidade, fornecimento de informações sobre IST's e contraceptivos para mulheres e queers, disruptando formas reacionárias de envergonhamento. o necessário está longe de ser um retorno sectário aos teóricos da "segunda onda", mas sim traçar o fio condutor que deu origem à nossa situação presente — as maneiras pelas quais o sexo foi exaltado, sua relação com os sentidos do eu e as ideologias do todo e do natural. o sexo-positivismo como um movimento social coerente seria apenas um tigre de papel, em vez disso o objetivo desse ensaio é perturbar o apego ao sexo que tem vivido no feminismo e na imaginação popular e sua relação que vive bem há mais de 30 anos no "femininismo sexo-positivista".

antes de continuar, quero esclarecer o meu uso do termo "não-homem":

"não-homem" não pode ser entendido como uma forma curta de dizer "mulheres e outros". é, na verdade, uma abrangência de identidades não-masculinas, uma maneira de se referir ao produto da relação de exploração. "é insensato descrever não-homens fazendo algo — qualquer coisa — ou tendo algo", porque não-homem é uma posição de silêncio, uma exclusão da subjetividade de como é trabalhar com gênero e patriarcado. isso não pode ser reduzido para nenhum grupo de corpos e identidades, e fundir isso com uma feminilidade única seria um erro, da mesma forma que seria fundir "proletários" com "trabalhadores industrial". nenhum de nós é considerado não-homens pela virtude da anatomia, ou identificação, enquanto, na verdade, não-homens é uma posição na qual somos forçados a se encaixar, independente do quão maior ou menor forem as formas de violência de gênero.

efetivamente, o não-homem não pode falar e nem ser representado com uma exatidão total, já que é definido por falta e ausência. ainda assim, é um ponto em um relacionamento causado pelas "classes de gêneros", é a discussão disso é necessária para o entendimento do que é ser uma mulher, homem, transgênero, ou queer. não-homem é uma forma de direcionar o problema do patriarcado — a forma na qual a masculinidade e a subjetividade masculina produz, se apropria e explora com as condições do silêncio, morte e vazio — ao mesmo tempo que evitando as pressuposição de um feminismo coerente e um assunto feminino. a não-masculinidade é uma constitutiva da realidade das classes de gênero — formas de feminilidade e masculinidade existem apenas em relação a isso — mas é irredutível para uma ou mais classes.

II — o feminismo sexo-negativista não aconteceu

apesar de toda a censura moral, o antagonismo ao que era percebido como "identificado como masculino" ou sexo patriarcal, a rejeição total da relação sexual com penetração — a rejeição do sexo por completo teve apenas um breve momento de aceitação dentro de uma leva bem pequena do feminismo. dois fatos confirmam isso: que a maioria das feministas "sexo-negativistas" (dworkin, por exemplo) negaram qualquer antagonismo ao sexo em si, e elas continuaram a afirmar e engajar com formas de sexo que eram recebidas como boas. A suspeita de ellen willis de que "a repulsa deles contra a heterossexualidade [servia] com a mais fina das capas para o desgosto com o próprio sexo" é, em última análise, falsa. não que tal repulsa não contivesse desgosto, mas que, no final das contas, foi reencaminhada e colocada para para funcionar em apego, ou afirmação, do sexo.

podemos traçar um senso de si mesmo, que se desenvolveu antes e depois do breve apogeu da "negatividade sexual", para ilustrar como essa afirmação do sexo começou. isso não é meramente coincidência, em vez disso, é um reflexo de uma íntima relação entre o agente sexual e subjetivação, particularmente dentro da teoria feminista. sexo, "como uma densa troca de pontos para relação de de poder", desenvolve sua forma lado a lado com a construção de agência e subjetividade, mas também, e mais importante, é um ponto onde alguém vem se tornar a ser. como direi mais adiante, o trabalho do sexo é frequentemente o trabalho de subjetificação e objetificação. assim como, a declaração política do que se é, deve ser, e deve ser falado, em seguida, carrega consequências imediatas no reino do sexo, como quem se é estabelecido pela forma como se age sobre ou com outros.

para traçar os sentidos da auto-motivação de grande parte da política sexual feminista, podemos começar com simone de beauvoir em o segundo sexo. nele, ela estabelece muitos dos fundamentos teóricos para o feminismo subsequente, mais poderosamente em sua concepção de subjetividade e agência. ela escreve: "o drama da mulher está nesse conflito entre as aspirações fundamentais de todo sujeito... e a compulsão de uma situação na qual ela é inessencial." essa formação existencialista, de que a luta das mulheres é recuperar ou afirmar recentemente a vontade essencial do sujeito em direção à liberdade, torna-se fundamental para muito do feminismo subsequente.

não surpreende então, que muito do que de beauvoir problematiza na sexualidade é a passividade forçada da mulher, e para combater isso ela propõe reciprocidade. caso o homem "deseje e respeite" ela, "sua integridade permanece intacta enquanto ela se faz objeto, ela permanece livre na submissão na qual ela consente. por isso o ato do sexo é dito ser um jogo de dar e receber e a agenda sexual igualitária é posta. ela descreve entusiasmada o narcisismo, a urgente subjetividade de possuir o corpo feminino, encontrado na sexualidade de um adolescente virgem.

feminismo radical, de 'SCUM manifesto' da valerie solanas, se choca com de beauvoir nisso e problematiza a subjetividade masculina por si só, não somente a excluindo. particularmente, solanas faz essa reversão com clareza, descrevendo o masculino como "fisicamente passivo", "vazio", "preso dentro dele mesmo" e essa fraqueza como motivação para possuir, foder e guerrear. todo o modo de definição do homem em ser e si mesmo, descansa na habilidade de se apropriar e matar. ele não pode existir consigo mesmo, não pode ser contido e não pode experienciar nenhum tipo de empatia ou alguma experiência intersubjetiva. isso, que solanas identifica como o "sexo masculino", ou masculinidade como um todo, é a raiz da nossa sociedade. ele, no desejo louco que o leva a possuir, constrói a família, paternidade, guerra, o governo, capitalismo (ou "o sistema monetário") e o entendimento deformado da natureza feminina. então, para solanas, o projeto de desfazimento desse mundo significa destruir o sexo masculino.

mas solanas presume que mulheres tem a habilidade de ser em uma maneira inteiramente diferente. as mulheres tem um ser para manifestar, e enquanto elas são condicionadas à uma fraqueza e passividade definidas por homens, isso pode sobressair no processo de destruir a sociedade. sem sua "masculinidade", as mulheres são calmas, donas de si, capazes de sentir empatia e capazes de desenvolver uma sociedade baseada nesses atributos. usando uma leitura flexionada de mary daly, as mulheres são as possuidoras do brilho divino que os homens falham desesperados em se apropriar, e se forem além do mito masculino, podem fazê-lo se manifestar politicamente. o projeto feminista parte dessa diferença essencial. enquanto algumas feministas radicais, "cell 16" como um exemplo notável, perseguiram o lado mais negativo do pensamento de solanas, talvez o mais influente foi essa noção de diferença que foi usado pelo separatismo lésbico.

em um dos primeiros documentos lésbico-feministas, "lésbicas-radicais, a mulher identificada como mulher", uma dupla imagem do lesbianismo é apresentada como influente e ilustrativo. em um sentido, o lesbianismo é primordialmente um trajeto político, uma forma de rejeição à feminilidade patriarcal e, mesmo assim, "uma categoria de comportamento possível somente em uma sociedade sexista". ainda, em outro sentido, isso, ou talvez a identificação de uma mulher existindo meramente por detrás da "lésbica", é uma forma de construção e afirmação da verdadeira identidade. seguindo um comprometimento adequado com mulheres, diz-se que a própria sensação de alienação recua, revelando "uma nova consciência de e uma com a outra". é apenas "com aquela verdadeira identidade, aquela consciência" que o movimento revolucionário pode proceder.

a eventual ascensão da última tendência fez uma tremenda ruptura com o feminismo radical anterior. em vez do eu autêntico ser um produto do desmantelamento bem-sucedido do patriarcado, é uma pré-condição para isso. nos primórdios do separatismo lésbico, isso é menos central. o avanço da consciência e do lesbianismo foram, embora priorizados, abordados em termos mais táticos do que metafísicos. o lesbianismo e o desengajamento da esquerda masculina eram um meio para o fim, uma forma de comportamento e identificação que oferecia um desafio às formas de patriarcado. "a mulher identificada como mulher" faz o argumento de que a "estrutura heterossexual... nos vincula em relacionamentos individuais com nossos opressores", tornando-a de tal forma que as "energias e compromissos" sejam divididos e prejudicados. os furies, em alguns artigos anteriores, fazem referências repetidas para a capacidade do lesbianismo em "minar a sociedade dominada pelo masculino não fodendo e nem reproduzindo", destacando sua necessidade em discutir as falhas do feminismo heterossexual e apego aos homens. as identidades lésbicas [delas], mesmo quando tomado como a única estratégia útil, tem elementos de ser apenas uma estratégia em vez de um fim em si mesma. mas conforme os anos 70 progride, a tendência de declarar lesbianismo como uma "realidade completamente diferente" (spectre, 1971), e uma procura de "pureza com a neve, ego livre e sem fins lucrativos" (everywoman, 1971) progrediu até eclipsar com os lesbianismos anteriores. para tigrace atkinson, que declarou anteriormente que "feminismo é a teoria e o lesbianismo é uma pratica", se tornou "feminismo é a teoria e lesbianismo é a pratica".

o que alice echols descreve como feminismo cultural começou a partir dessa fundação, tomando como seu princípio organizador uma feminilidade essencial. enquanto o feminismo radical anterior defendia a destruição ou separação de gênero, o feminismo cultural falava de recuperar um matriarcado antigo e afirmar uma verdadeira feminilidade escondida pela opressão. mary daly é, talvez, a mais exemplar do feminismo cultural, seu trabalho devoto a nomear e descrever sem parar essa feminilidade essencial, seus movimentos únicos, sua vontade de vida e, acima de tudo, sua afirmação. no final dos anos 70, sua preocupação passou a defender a integridade corporal da força vital pura que ela atribuía às mulheres — eventualmente descendo ataques à transexualidade. ela descreveu isso como uma espécie de "fenômeno frankenstein", "a loucura da violação de limites,... a marca dos necrófilos que sentem a falta do princípio de alma/espírito/amor à vida consigo mesmos e, portanto, tentam invadir e matar todo o espírito, substituindo conglomerados de cadáveres."

uma escola, em particular, do feminismo cultural influenciada por daly definiu para si uma tarefa de desenvolver o contrapoder lésbico, estabelecendo comunidades, eventos e negócios refletindo em uma "presença" metafisicamente diferente do mundo patriarcal. a própria daly argumentou por um "contra-mundo" feminino, onde tamanha presença iria "irradiar para fora, atraindo outros" em uma forma de ação denominada ginecologista/afetiva - "tanto a descoberta quanto a criação de um mundo diferente do patriarcado", mas tal mundo nunca foi verdadeiramente construído. o contrapoder lésbico permaneceu produzido pelo mesmo capitalismo, patriarcado e supremacismo branco que o resto do mundo, e foi limitado a uma reinscrição de indiferença sexual, embora em linhas diferentes. sendo assim, a estratégia do separatismo lésbico, mesmo com toda a sua ideologia contrária, ficou contente em ser mais como os homens, ter mais acesso as formas masculinas de poder e identidade natural, ser donas de negócios e livres e saudáveis egos existindo em amizades, autonomia e autenticidade.

além do desenvolvimento do contrapoder, a mudança pela qual a identidade autêntica se tornou a condição a pré-condição para o feminismo informou e impactou a política de representação e consciência, dentro das variedades do movimento anti-pornografia, isso se tornou especialmente falado. a afirmação de robin morga diz que: "pornografia é teoria, estupro é a prática."

representações pornográficas e ideais sobre mulheres foram a causa do estupro, enquanto o masoquismo era uma espécie de falsa consciência pela qual as mulheres racionalizavam a exploração contínua. ambos representavam uma aberração de um modo de ser saudável, que poderia ter sido corrigido através da mudança da cultura e da promoção da consciência correta. essa atitude em relação ao sexo era, embora muitas vezes uma negação de quase todo o sexo hétero e muito sexo lésbico, em última análise, um conservadorismo que visava proteger e afirmar uma forma de bom sexo uma defesa de uma sensualidade supostamente pura.

essas tensões no movimento anti-pornografia muitas vezes exemplificaram a mudança cultural e a priorização da consciência que passou para o feminismo pró-sexo e sexo positivista. devido à suposta casualidade, em que a teoria pornográfica e a autoimagem, e não as condições materiais, deram origem direta às realidades do estupro e da exploração patriarcal, essas políticas retornaram a uma estratégia liberal de desafiar a representação. os radicais, dentro e fora da luta anti-pornografia, criticaram tais atitudes enfatizando que a pornografia era um sintoma do patriarcado ou uma realidade cuja vida era muito maior do que representação e ideias. ainda assim, a postura materialista-radical acabou não conseguindo ganhar força e, nos movimentos sexo-positivistas recentes, há uma ênfase familiar na cultura e na consciência em desprender o ódio corporal, promovendo atitudes saudáveis em relação à sexualidade e a conscientização como um fim em si mesmo.

talvez mais sutilmente, essa política se baseie em uma fé com um tipo de liberdade negativa. defendendo o patriarcado "de forma livre" e, ao fazer isso, afirma o potencial a definição do assunto. nas formações feministas radicais e culturais, essa liberdade era a liberação das mulheres como uma classe, e as decisões individuais das mulheres se tornaram responsáveis no ponto em que beneficia todas as mulheres. para aqueles excluídos deste conceito estreito do que o comportamento livre implicava gays liberacionistas, lésbicas sadomasoquistas e outros que apreciam atos sexuais e gêneros proibidos tal concepção de libertação foi rejeitada, em favor de uma afirmação muito mais ampla.

em seu ensaio de 1984, "pensando em sexo", gayle rubin articulou um exemplo dessa mudança na análise. o que ela problematizou foi principalmente a "injustiça sexual", como resultado do que ela chamou de hierarquias sexuais. em nosso mundo cristão e repressivo, o sexo está sujeito a uma espécie de distinção maniqueísta de "sexo bom/sexo ruim" há o sexo correto, baunilha, o sexo entre casais performado de graça, e, então, tem o sexo difamado. tentar simplesmente mudar o que é sexo aceitável e o que não é, reproduz essa lógica da ideologia dominante do sexo.

mas dentro desse argumento há uma mudança completa na base de uma política sexual. partindo de feminismos anteriores, ela escreve que "é essencial separar analiticamente gênero e sexualidade para refletir sua existência social separada." a liberação sexual, em tal contexto, envolve a minoria sexual sendo livre de julgamento indevido, em vez da liberação por completo de uma classe. a presunção dela é que a violência da sexualidade estrutural, é, em vez de uma opressão de gênero contra mulheres, uma opressão direcionada a esses engajados no que a cultura dominante determina como "sexo ruim". homossexualidade, promiscuidade, fetiches, e pornografia são efetivamente equalizados como todos sendo oprimidos por esse sistema de "estratificação sexual" e hierarquia, literalmente agrupados em um diagrama do "sistema de valores sexuais". para rubin, interrompendo e rejeitando o negativismo sexual permite para uma democracia de "éticas sexuais plurais". apesar de sua recusa de colocar um assunto essencial na procura da liberação, seu modelo de agência supõe um projeto político que constrói uma identidade na mesma democracia, igualdade e princípios liberais de beauvoir. o sexo radical de rubin não é nada mais do que uma pauta liberal extremista, livre para fazer tudo desde que não atrapalhe a liberdade de outros, e sua estratégia ainda mais liberal a afirmação da agência individual e liberdade de representação.

desde então, essa atitude liberal pró-sexo persistiu, ultrapassando os feminismos "anti-sexo" e entrando no convencional. do lado explicitamente feminista, "o sim significa sim" orientou protestos com marchas das putas, em adição para protestar contra o estupro, assédio nas ruas e a culpabilização da vítima, centralizando uma narrativa bastante contundente da reivindicação e celebração do sexo. usando uma retórica de agência pessoal, essa ética sexual de reivindicação enfatiza a capacidade do sujeito individual de atingir um estado não alienado, nem mesmo através de meios especialmente políticos. tudo o que é necessário é uma falta de vergonha sobre o sexo e algum controle sobre como se quer ser fodido. em um retorno à política do orgasmo dos anos 70, tal atitude postula apenas a proposição radical "de que o sexo é bom", e as atitudes de negação do prazer em contrário são removidas. tais preocupações são parcialmente espelhadas em um sempre presente, uma espécie de liberacionismo sexual no estilo oprah, um direito ao prazer sexual, para recuperar a natureza dos "animais sexuais". podemos ganhar a libertação do que é ostensivamente "nossa" frigidez forçada e vergonha por performar prostituta em vez de virgem, escolhendo uma roupa sensual para nosso homem como um ato de revolução.

mesmo as atitudes queers ostensivamente radicais sobre sexualidade, encontram a si mesmos repetindo tal relacionamento. enquanto a crença de um ego essencial e autoafirmador é muitas vezes abandonada em favor de uma visão construcionista social, o drama da política sexual torna-se reformulado como uma tensão entre "normativo/não-normativo". as normas são concebidas em sua capacidade de suprimir ou no grau em que são subvertidas, e assim "obtém-se pouca noção do trabalho que as normas executam além desse registro de supressão e subversão dentro da constituição do sujeito". tomado sem referência ao outro trabalho das normas como é frequentemente o caso nos círculos queer, isso retorna a uma postura liberal à medida que a habitação e a interrupção das normas se confundem com a "resistência". na prática, isso valoriza um tipo particular de postura queer, pela qual o sujeito individual demonstra a capacidade de realizar o gênero "de forma não normativa", através do exagero, ironia ou fracasso. quanto maior o dinheiro perdido em normas e demonstração de individualidade, ou adesão a uma exibição subcultural de individualidade, maior a suposta resistência.

é o meu objetivo rejeitar todas essas valorizações do sujeito, como em si mesmas boas e como em si mesmas nosso objetivo. na história do feminismo dos eua, as subjetividades propostas como propriamente feministas se apresentaram como às vezes úteis, mas, em última análise, limitam o movimento feminista e devem ir além. subjetividade e identidade são eles próprios efeitos materiais do patriarcado, assim como os meios pelos quais a subjetividade se afirma no reino do sexo; eles são todos a realidade sexual. lutar contra nossos condições é lutar contra o que essas condições nos fizeram ser, e ao fazê-lo devemos questionar e problematizar exatamente como nossas posições surgiram. ao apreender este mundo, e, portanto, o gênero, como uma totalidade, segue-se que nossas identidades são a própria interioridade que procuramos escapar que nenhum de nós alcançou, ou pode realisticamente alcançar imediatamente, a postura da forasteira, a nova mulher do pós-feminismo.

iii — a metafísica do sexo: o todo e o natural

uma afirmação comum dentro de um discurso popular é que o sexo é natural, que sempre estará aqui e que, então, condená-lo é mero puritanismo. é claro que podemos lutar pela igualdade sexual, por novas linguagens e práticas do sexo que possam torná-lo algo equitativo  mas negar que a necessidade do sexo, seu prazer e procriação como uma função essencial e boa de nossos corpo, é tóxico, negando a vida. resta dentro do sexo, tal como existe no presente, um núcleo que é ahistórico, produzido apenas por nossa humanidade ou nossas estruturas físicas. o senso comum e a ciência popular confirmam isso; somos animais fazendo o que os animais fazem e sempre fizeram, a sociedade meramente perverte e reprime essas pulsões.

uma análise positiva sexual mais radical permite a crença de que essa natureza está temporariamente ausente, mas que um tipo semelhante de ser, "completamente" ainda pode ser conquistado. pode-se ser incapaz de ter um bom sexo devido a traumas ou misoginia internalizada, mas o potencial para um bom sexo, um sexo não patriarcal, permanece dentro de todos nós. alguns oferecem abordagens relativamente individuais para alcançar esse potencial uma terapia voltada para a cura, elevação de consciência de tal forma que podemos desaprender imagem corporal negativa enquanto outros sugerem estilos de vida e comunidades alternativas inteiras. em uma ponta distante dessa análise, é um prazer radical ou puro desejo que nos oferece um potencial liberatório, e isso deve ser alcançado quebrando códigos de moralidade ou simplesmente encontrando a centelha de desejo dentro de nós. enquanto a maioria do sexo é composta da história feia do gênero, podemos representar um sexo alternativo composto inteiramente por outra coisa, ou realizar a sexualidade de tal forma que ela seja desfeita. é só uma questão de fazer certo desta vez, fazendo mais, enfatizando o belo ou a identidade destrutiva naquela que já fazemos. ao longo de todo esse pensamento resta um fio condutor: uma fé em um sexo bom, um sexo que é "apenas" sexo e fora da exploração, sendo já manifesto na terra ou a ser provocado por nossas ações.

foucault começa a responder isso no volume um de "a história da sexualidade":

"ao criar o elemento imaginário que é o "sexo", a implantação da sexualidade estabeleceu um de seus princípios internos de funcionamento mais essenciais: o desejo do sexo, o desejo de tê-lo, de ter acesso a ele, de descobri-lo, de libertá-lo, de articulá-lo no discurso, de formulá-lo na verdade. constituiu o próprio "sexo" como algo desejável."

o sexo como figura dentro do discurso só tem a existência como os processos que o criam e constituem, o processo dando-lhe sentido é "o processo através do qual a desigualdade de gênero se torna socialmente real." os atos sexuais simplesmente não existem como coisas por eles mesmos, como essência não formada pelo contato e pela história. na busca das formas ideais do sexo dentro de nós elas recuam sem parar, apresentando apenas mais elementos do discurso. pode-se psicanaliticamente separar o inatismo de uma pulsão, ou apontar para os mecanismos que transformam um pênis em um "pau" e a vulva em uma "buceta", mas isso nunca pode ser o suficiente. apesar de ausência de um corpo não mediado, pode-se responder que não fomos suficientemente fundo, que é apenas uma questão de quebrar nossa socialização ou avançar ainda mais no projeto feminista. neste sentido, o sexo natural/puro está além da confirmação ou negação no reino dos fatos objetivos, e assume o caráter de uma teologia. no entanto, essa teologia tem ramificações materiais imediatas, como um componente de ideologia de foucault diz, com razão, ser essencial.

dentro do processo de garantir o sexo como uma essência, distinta dos movimentos históricos, ideológicos e materiais da sexualidade, um processo simultâneo trabalha para garantir essa essência como desejável. "o próprio sexo" (ou de outra forma ontologicamente distinta do sexo) leva todo o seu valor de fusão com estados metafisicamente diferentes semelhantes de ser. isso pode ser visto dentro da criação do "erotismo" dentro de certos feminismos. o erótico é primeiramente separado da sexualidade masculina ou pornográfica, ele de alguma forma pré-existe e é ofuscado pela "mente pornográfica" (mckinnon, parafraseando susan griffin), e assim ofuscando pelos afetos genéricos, materiais patriarcais dessa mentalidade pornográfica. simultaneamente, o "erotismo" é carregado de um valor como sendo da identidade liberta, como um modo de trabalho e subjetivação que não se apropria. neste processo de nomear um erotismo único, ele nomeia atos específicos e materiais como eróticos, distintos da sexualidade patriarcal como a expressão imanente dessa essência radicalmente diferente. em um extremo, essa essência é tida como absoluta, absolutamente diferente do ser desse mundo e não formada pelo seu contato com ele. sua imanência passa a ser atribuída a toda uma forma de vida uma comunidade feminista como uma espécie de comunhão, uma essência compartilhada. daly nega "uma divisão entre o amor erótico e a amizade" e, colocando sua base teológica nua, descreve essa amizade como acalentar "faíscas divinas... sabendo que sua combustão combinada é a criação do fogo feminino."

o apego a uma forma de sexo imanente e absoluta, a crença de que essa imanência é fundamental para a comunidade (seja ela já presente ou como o horizonte para o qual devemos trabalhar), é totalizante e cruel. o imanente sexual já é a forma pela qual se deve lutar, assumindo politicamente a forma de cerco, defesa e reimposição de um erótico existente. o projeto de presença radical, definido como uma união totalmente repetida do sexo incorreto. o diferente absoluto, não pode simplesmente encerrar um território (e assim permanecer em contato com outras essências, comunicando, contaminando), deve encerrar o recinto, estar sozinho com sua solitude. é impossível, e assim a "verdadeira comunidade" que ou foi perdida ou não adequadamente estabelecida, fecha-se, tenta purificar a si mesmo e ao mundo.

no feminismo cultural mais totalizante, a presença do absoluto é mantida por alguns eleitos (embora, de acordo com seus tons calvinistas, não se possa ter certeza de quem), e o projeto de alcançá-lo requer otimização constante e racional de boas obras. debuta-se infinitamente sobre o que constitui penetração, que nível de jogo de gênero é aceitável, como é melhor se comportar de uma maneira verdadeiramente lésbica. do outro lado: o liberacionismo sexual, propondo ao invés de boas obras, um perpétuo desfazer de costumes sociais, visando alcançar ou ter reivindicado a realização de um estado de natureza logo abaixo da superfície. levado ao seu extremo mais longínquo, o niilista-libertido batailleano, que percebe a impossibilidade de seu projeto, e assim o concebe como puro suicídio/puro assassinato.

mas deus não vem, não pela ação humana. o grande muro, o grande projeto da verdadeira comunidade, ficará para sempre incompleto e seus construtores terão morrido por nada. a partir daqui, descrever o movimento do pró-humano, ou da comunidade tal como ela existe de fato, torna-se possível. separados da identidade imanente ou da comunidade-como-comunhão, resta-nos buscar, dolorosamente, a explicação. não recorremos a uma natureza pura ou piedade pura, qualquer parte do mundo que possamos reivindicar seja verdadeiramente boa, para fazer com que o mundo se ajuste. a imagem de eden contém "nada a que se referir, nada a que olhar" neste vácuo, escrevemos, nos comunicamos, tentamos dar sentido ao mundo, agimos de maneiras que esperamos que façam sentido, inevitavelmente falhando e comunicando essa falha.

abandonar a comunhão/comunidade cristã - o futuro brilhante, manifestado agora e ditado pelos eleitos - sem sucumbir a um expediente, falso-niilismo apático, imaginando todo mundo como natural, inevitável, condenado. este espaço, comunicativo e preocupado com o movimento, interno a este mundo à medida que procura ir além dele, não se propõe a efetuar um novo mundo completo, nem se resigna à reforma ou à elevação da consciência. uma abordagem radical do sexo "não é para nós um estado de coisas que deve ser estabelecido, um ideal ao qual a realidade [terá] que se ajustar. chamamos [isso] de movimento real que abole o presente estado das coisas."

como parte deste (anti)projeto, tento falar sobre sexo usando as estruturas que falam com mais precisão à dor, incomunicável e inconsolável, perduro dentro do gênero feminismo marxista e pós-estruturalista, discurso e história sem se referir ao prediscursivo ou ao ahistórico.

tentar me curar de um trauma conseguiu me foder pior porque comecei a perguntar "o que eu quero? o que eu realmente quero do sexo?" e mergulhando em busca do meu impulso sexual estragado, não encontrava nada, mesmo.

muitas vontades de estar perto e me sentir segura, querendo ser validada e vigiada e essas merdas todas, mas nada que pareça inato. sem me embriagar, tudo o que consigo é a famosa frase de bartleby "eu preferiria não". sobre as palavras do catecismo, que sou feito à imagem de deus, engasgo com mesmo de mentir. se há algo de um ser-espécie que permanece em mim, parece irremediavelmente perdido.

me dizem as orgias que presencio serem uma ruptura, que algo diferente está acontecendo, mas não vejo. no final eles voltam ao trabalho, voltam a esse mundo fodido que os deixa loucos, tendo vontades, cruéis e tudo que eu sempre vi foi um momento onde todos pararam de se importar com o quanto tudo aquilo era normal. que chato esperar que no fundo de tudo, se ao menos forçarmos mais, haverá algo bom. tudo que sade conseguiu foi um monte de cadáveres que nunca tiveram o que ele queria.

de onde as velhas feministas achavam que surgiria a diferença? o que neste mundo poderia compensar o próximo? peço que não zombe deles, mas porque continuo retornando a ele, esperando que a resposta seja diferente, esperando que eu a encontre por acidente um dia e assim tudo possa ficar bem, mas não acontece, e agora?

iv — sexo e sujeição

não muito diferente do trabalho "natural", o sexo, embora presumido como um fato pré-existente do corpo, exige uma produção social elaborada para trazê-lo à existência. a analogia com o trabalho torna-se clara no momento que "essa é uma mercadoria estranha para não ser uma coisa. a capacidade de trabalhar reside apenas em um ser humano cuja vida é consumida no processo de produção." caracterizar o trabalho como natural e, portanto, ahistórico, serviria como uma máscara para o trabalho reprodutivo que o traz à existência; da mesma forma, caracterizar o sexo como natural obscurece a produção social que o trouxe à existência. alterando a citação anterior, podemos dizer: "a capacidade de ser fodido reside apenas em um ser humano cuja vida é consumida no processo de reprodução social."

isso não quer dizer que os humanos, como animais anteriores a qualquer desenvolvimento da cultura, não se envolvessem em comportamentos agora reconhecidos como "sexo", mas sim que seu significado discursivo e todas as práticas materiais que constituem são historicamente produzidos. da mesma forma, os humanos sempre agiram e criaram, mas é apenas no desenvolvimento capitalista, nos processos que nos alienaram e proletarizaram, que isso se torna garantido como "trabalho". o que nos impulsiona a fazer sexo, no aqui e agora, é algo determinado pelos fluxos de poder e estruturas econômicas que nos produzem como "mulheres", "homens", "trans", "hétero", etc. se há milhares de anos havia um modo pré-generificado de prazer, personificação e uso da genitália, ele está irremediavelmente perdido para nós. o contato radical que feministas lésbicas como janice raymond esperavam está infinitamente ausente. não há presença da identidade do outro, nem oportunidade para o verdadeiramente intersubjetivo, só um campo interminável de toque, afeto, ânsia, sobrevivência e as relações de poder, produzidas e mediadas por nossas condições materiais.

assim, então, qualquer menção aqui de "sexo" não está se referindo a qualquer interação de corpos, como atos sozinhos fora da história, mas sim do sexo, pois é uma figura entro da sexualidade e, portanto, dentro de fluxos de poder. refiro-me não ao sexo como poderia ser ou como é em si mesmo, mas como é experimentado aqui e agora, milhares de anos profundamente no patriarcado. não há natureza no sexo que o torne essencialmente maligno, e não há razão para negar que o "sexo", como atos físicos, poderiam ter significados radicalmente diferentes no futuro, assim como tiveram no passado.

nossa compreensão do sexo deve então dispor de todas as noções naturalizadas de sexo sexo como rito sagrado, sexo como comunhão, sexo como aspecto fundamental da vida e sexo como o meio necessário pelo qual os corpos são descobertos e explorados. da mesma forma, visões idealizadas de sexo como uma expressão da totalidade feminista, como uma irrupção radical de prazer e como um local de gozo destruidor do mundo são contraproducentes. "a dominação masculina aqui não é uma sobreposição artificial sobre um substrato inalterável subjacente de ser sexualmente essencial e não corrompido. sexualidade livro do domínio masculino exigirá mudança, não reconceitualização, transcendência ou escavação."

o sexo deve ser compreendido através de sua relação com nossa estrutura econômica e política, ou seja, capitalismo, patriarcado e supremacia branca. como tal, o sexo pode ser entendido como trabalho. não apenas o trabalho óbvio de fazer bebês (embora isso ainda seja importante e central em certos contextos), mas uma vasta gama de funções dentro do trabalho de manter um corpo de trabalhadores. o sexo não-procriativo é permitido e fomentado não por causa da sociedade ter se aproximado mais em direção à liberdade, mas porque o trabalho reprodutivo exigido pelo capital moderno não é meramente o do crescimento populacional, mas da criação do eu, do indivíduo e, consequentemente da identidade.

 podemos perceber isso dentro da narrativa moderna da perda da virgindade. não é mais uma venda arcaica para a escravidão do trabalho doméstico, mas uma vinda pluralista para dentro de si, repetida para sempre em cada ato de sexo. este é para alguns um momento em que um se refugia no corpo do outro, um construído como um lugar quente e cedente sobre o qual alguma impotência primal pode ser resolvida. a identidade se torna conhecida em sua capacidade de se dissolver-se com segurança, de deixar ir e ser pega por um outro. para outros, é um campo pelo qual se pode tornar-se compreendido, pode articular-se em termos alienígenas e sempre presentes: beleza, fisicalidade, disponibilidade (chamado "desejo") para o sexo. pode-se até, devido à benevolência do progresso ou aos confortos da sexualidade não-hetero, cumprir em algum grau ambos os papéis, no que é chamado de "empoderamento" e "mutualidade".

dentro dessa visão de entrar na identidade sexual de alguém, há uma contradição crítica para pelo menos uma das pessoas que trepam com a agência é conferida apenas encontrando um lugar dentro do campo em que o sexo age. o indivíduo não "fode" tanto quanto ele encontra seu espaço no ato de "foder" constituído através de inúmeros atos de auto-produção. o vir a ser como mulher, ou como qualquer uma das outras subjetividades de gênero disponíveis para não-homens, é assegurado através de reificação simultânea da posição estrutural do silêncio a existência da classe como não-homem. modificando uma declaração de mackinnon: uma vez que não-homens "tem" sexo, é perdido como seu.

concepções radicais de consentimento então dependem de uma impossibilidade estrutural o sujeito liberal. em seu início, o consentimento radical presume que podemos, teoricamente, fazer sexo de tal forma que ninguém seja objetificado, ninguém sendo ferido. todos podemos ser bonitos, todos podemos ser empoderados, todos podemos fazer sexo de maneiras que nos pareçam certas, e se a cultura do estupro está se totalizando demais agora, pelo menos o que é importante é que avancemos em direção do consentimento e, assim, expulsemos o não consentimento.

no entanto, as estruturas que ordenam o sexo não permitem que essa visão esperançosa seja realizada, e é dentro da cultura do consentimento que sua impossibilidade se torna amargamente pronunciada. para todas as mudanças culturais ocorridas, o sexo permanece uma questão de sujeitos e objetos, de corpos falantes tirando algo dos silenciosos, mesmo entre corpos onde a fala e o silêncio coexistem. as pretensões de igualdade e consciência não apagam o mundo do qual o sexo é produzido e tornado legível.

v — o valor e o consumo do sexo

a partir daqui, o sexo deve ser entendido como algo inextricavelmente determinado por noções de valor. na formação mais contundente do sexo, alguns corpos produzem valor sejam esses: bebês, satisfações, beleza, senso de si, etc e outros corpos colhem o benefício de tal valor na troca de sexo. o sexo é um momento, entre muitos, em que os corpos se transformam em uma substância para ser "desfrutada", ou seja, consumida.

o conceito de "empoderamento sexual" do feminismo liberal pode então ser tomado como um impulso para a autopropriedade, para se beneficiar da própria produção de valor. isso não é necessariamente inútil, e às vezes apresenta um poderoso desafio ao silêncios necessários às formas do patriarcado, mas como um objetivo em si é uma demanda por maior representação em uma economia fálica do sexo, o consentimento radical leva essa demanda ainda mais longe até que se torne quase autoparódia: todos podem ter acesso à posição do assunto e, como tal, todos podem se beneficiar de sua própria produção de valor, mas economia fálica não permite tal utopismo. mesmo que para um encontro possa parecer mútuo, sentir-se decidido por atores livres e iguais, a mecânica subjacente do sexo não foi desafiada. a posição do sujeito necessita do objeto; qualquer valor produzido pode sempre ser apropriada e sempre será conveniente apropriar-se. o ato do estupro estará em tal contexto sempre disponível, e quando a vingança contra o estuprador pode ser contornada, sempre será promulgada.

para começar de novo: corpos femininos, "mulheres" ou não, são lançados como forças (re)produtivas e como mercadorias. oferecidos pela maioria dos feminismos sexuais positivos são meios pelos quais essa produtividade pode ocorrer com um mínimo de violência, em que um corpo lançado na posição de objeto em alguma agência dentro de um encontro sexual já presumido. o cosmo nos oferece uma gama de novas posições interessantes com nosso homem, a revista do consentimento nos oferece maneiras de negociar semi-formalmente encontros sexuais; encontramos maneiras de nos sentirmos bem com o que estamos fazendo, o que devemos fazer por segurança e sobrevivência. mas isso tudo é dentro de um contexto onde se presume que nossos corpos sejam meros locais, de fabricação de bebês, de prazer, de autodescoberta, de qualquer coisa, e esse contexto não é contestado ou desafiado com a afirmação de que todos têm o direito ao prazer, ao autoconhecimento, aos bebês. a produtividade sexual é talvez reconhecida e quando o trabalho sexual é abordado, isso é flagrante , mas presume-se que seja neutro. quando o dinheiro está envolvido é "apenas um trabalho"; quando outras formas de valor, como a aparência física, estão envolvidas, tudo o que se obtém é "claro, ninguém deveria ser forçado a ser bonito, mas o que há de errado com a beleza?"

a produção sexual e a auto-propriedade são agradáveis até se confrontarem com a materialidade do consumo. "o consumo dá ao produto o toque final ao aniquilá-lo, uma vez que o resultado da produção é um produto, não como a personificação material de atividade, mas como um objeto para um sujeito ativo." uma economia capitalista do sexo, em seu modo fálico de sujeito/objeto, culmina e se reproduz em atos de morte tísica em momentos de silêncio, negação, violência e estupro. é no estupro, e no consumo violento que o tipifica, que o "não-homem" assume seu significado e é colocado para trabalhar, e é apenas dentro, ou sobre, essa classe que todas as formas de empoderamente sexual concedem.

vi - estupro e morte

há então alguma verdade na frase, atribuída erroneamente a andrea dworkin, de que "todo sexo é estupro". o estupro e o sexo estão longe de serem estranhos um ao outro, mas sim são elementos mutuamente constitutivos de uma estrutura mais ampla de exploração. a violência e a transgressão do estupro não é aberrante e sim um aspecto definidor da sexualidade. é a apropriação original que impulsiona todo o consumo ou autopropriedade subsequente, uma ameaça ou realidade que torna a sexualidade significativa. definir as qualidades que fazem do sexo um evento ao contrário do estupro se torna difícil; não há verdadeira ausência de força, nada que o consentimento não esteja nos termos do poder masculino.

a abordagem feminista, agora tradicional, para acabar com o estupro reconhecendo o estupro como um ultraje moral, tentando isolar suas características inaceitáveis e remover seu câncer do corpo de sexualidade de outra forma saudável falha desde o início para abordar essa realidade. na prática, isso muitas vezes adere a um padrão colonialista, a sociedade civil, oferecendo sua mão para salvar, ou corrigir uma aberração. estupro, nos dizem, é violência, não sexo. o estuprador é uma criatura quase metafísicamente diferente do homem normal, ou um monstro, ou, para os liberais, simplesmente muito doente. é alguma outra coisa, uma qualidade dos caídos. no entanto, as realidades concretas do estupro contradizem flagrantemente isso. a frequentemente citada estatística de que estamos muito mais propensos a ser estupradas por alguém que conhecemos, em vez de algum estranho à espreita em um beco, confirma a suspeita que se ganha com a experiência dolorosa. estupro equivale a um exercício horrívelmente normal de poder homens sobre mulheres, branco sobre marrom, hétero sobre gay, carcereiro sobre prisioneiro, e assim por diante. "um estupro não é um evento isolado, ou transgressão moral, ou intercâmbio individual que deu errado, mas um ato de terrorismo e tortura dentro de um contexto sistêmico de sujeição grupal, como linchamento."

ao longo de toda a sexualidade podemos encontrar muitas das qualidades atribuídas especificamente ao estupro. não é um exagero dizer que o trabalho afetivo da sexualidade, o trabalho emocional da subjetivação do outro, é explorador. da mesma forma, as restrições estruturais ao consentimento, a violência sutil e não tão sutil que torna o "não" inédito ou indizível, pode ser experimentada como coerção, e a abdicação da autodefinição e submissão à vontade do outro, muitas vezes necessária para entrar em sexo, pode ser sentida como violação. é em tal experiência que a presença do estupro, sua inextricabilidade a partir do sexo torna-se clara, ainda assim caracterizar terminantemente toda experiência de sexualidade como estupro seria uma negação da diferença. sexo e estupro não são dois pontos em um espectro de violência e exploração de gênero, sendo um simplesmente mais doloroso, mas sim estupro é aspecto distinto do patriarcado e da sexualidade coexistindo e mutuamente definitivo do sexo "normal", que vive uma vida diferente socialmente. as designações de cuja violação é tolerável, ou encorajada e cuja indignação moral é em si uma relação concreta. por mais que o estupro possa dar á sexualidade seu significado (genereficado), ela não é medida igualmente e armada além de um escopo estreito e binário de gênero.

dito sem rodeios: o estupro é uma função da morte social. ser estuprado não é diferente de tortura, pois o estuprado é colocado além dos limites da lei, norma, ou simples cuidado. ser estuprado é estar em um ponto de objetivação absoluta, limites não apenas violados, mas arrancados inteiramente, tornados sem sentido. nenhuma ajuda chega, nenhuma linguagem existe para comunicar ou reconciliar a própria dor porque se está no ponto em que a normalidade produz, contém e torna o excesso operativo, o silêncio e o incomunicável. no entanto, está não é experiência constante de uma classe monolítica de "mulher"; para muitos, é possível ser visto como contaminável, ter uma pureza considerada digna de proteção contra transgressão e, portanto, tal excesso é medido como moderação e discretamente. é só às vezes que o estupro de alguém até carrega o nome ou o significado de estupro, e onde é inominável e institucionalizado como nas prisões onde é transformado em piada, ou nos muitos infernos privados onde se é sempre "pedido por isso". repetidas vezes em momentos históricos de genocídio e colonização, o estupro em massa emerge como um princípio institucional e, em um movimento semelhante, embora não contíguo o estupro é prescrito em quase todas as sociedades modernas como um meio de normalizar corpos desviantes. essa morte ronda a sexualidade da sociedade civil. é a diferença que estabelece as necessidade de desejo patriarcal não-eu, não-masculino, não-sujeito, não-mulher, de modo que tenha um objeto sobre o qual agir. da mesma forma, o trabalho de gênero e a identidade de gênero existem apenas em relação a esse não-ser, até certo ponto vivendo fragilmente com ele, em silêncio parcial e produtivo e, até certo ponto, mudando essa violência para outro lugar.

modificando nossa primeira afirmação estupro está implicando em todas as formas de sexo, e perceber estupro corretamente como um escândalo põe em questão o fundamento de toda forma de sexualidade. normativo, o sexo civil é apenas uma parte de um sistema que tem como base o estupro, como princípio central de funcionamento. a integridade imaginada do sujeito perfeitamente consentido equivale a pouco mais do que um princípio regulados do estupro, uma pureza a ser defendida contra um outro ameaçador. o que não quer dizer que asserção da dignidade, do direito de não ser estuprada, por aqueles negados não é um movimento frequentemente necessário, que vale a pena. pelo contrário, o feminismo precisa ser cauteloso ao cair em um conservadorismo cultural que identifica o estupro como exógeno ao sexo e ao social, como uma doença a ser cortada. desafiar o estupro é desafiar todas as concepções de sexo e de corpos que dispomos; desfazê-lo seria arrancar milhares de anos da sociedade, do que pode muito bem ser o início da civilização.

vii — movimento

a posição do feminino: ela é fodida, ou espancada, ou ignorada até ser louca e como uma louca que acredita no amor. para experimentar a contradição, o corpo violentamente rasgado e desautorizado tanto a vida quanto a morte, desenvolve-se em nós "um heliotropismo secreto", uma volta em direção ao bem ausente. na fantasia roubada entre tarefas sem pé nem cabeça, ela imagina um mundo onde seus abusos acabaram. sua loucura é dada vazão nos médiuns rigidamente controlados disponíveis ativismo, alcoolismo, autoajuda, religião. em breves momentos a loucura transborda para o êxtase, mas em sua maioria são ininteligíveis para este mundo, e passam despercebidas. eles crescem cada vez mais distantes, a dor por eles cresce, ela se torna amarga.

o celibatário existe na outra extremidade deste, uma reação ao feminino bem que assume um caráter paradoxal, anseia visceralmente superar-se. ao exigir o bem com tanto fervor, o mundo se torna repugnante. cada pau inspira doença, cada foda é apenas uma lembrança da terrível distância entre corpos. seu amor, incapaz de descansar e se desligar deste mundo, ainda cresce para rejeitá-la e exigir perfeição. as histórias de outras "moças sérias" se repetem, com o desejo de se separarem, de expressarem amor apenas ao que é maior e além de qualquer aproximação.

se não for colocada para trabalhar nos papéis esperados da séria e frígida  — slut shamming, administração, humanitarismo raso isso se torna uma ameaça. no plano material, há cessação do trabalho reprodutivo, uma solidão que se recusa a validar o homem, ou fazer seus bebês, mas esse acúmulo muitas vezes excitante e necessário de pequenas recusas não consegue abordar sozinho a amplitude do patriarcado. fode ou não pode, o mundo nos lembra o que somos para ele. abandonar o sexo é, na melhor das hipóteses, um privilégio glorificado. talvez a maior parte da ameaça do celibato esteja em um afeto ou comportamento mais amplo, no ascetismo e no separatismo como uma vontade de greve de gênero.

na falta de meios para descansar em isolamento, para ser paranoico, o celibatário é em vez solitário. sara ahmed escreve como a solidão, em sua socialidade, engendra o desejo lésbico à medida que nos estendemos a novos espaços. "desejos lésbicos nos movem de lado"; o desvio de um porte ou desejo lésbica, ou sua perversão, nos coloca em contato com outras pessoas que compartilham sua inclinação. a solidão, que é desamor mesmo, é a dor de não poder estar presente, nos faz habitar nossos corpos de forma diferente. em sua forma mais radical, a dor da solidão se relaciona com uma presença ausente além de qualquer compreensão ou memória, como o discurso do que sente o indizível, onde não permanece, ou melhor, não pode permanecer preso nos laços auto-calmantes e heterossexuais destinados a ele, pode se tornar uma questão de engajamento político. o celibato então se manifesta como um afeto "lésbico", que nos move pra uma proximidade com outros que experimentam a dor do não-homem. é inebriante ver quantos outros entendem quando você diz "odeio sexo e não quero mais", como a agorafobia se torna coletiva e, portanto, outra coisa inteiramente. ecos do feminismo radical dos anos 70; lesbianismo como compromisso afetivo com uma comunidade ausente para mulheres e com aquelas que também estão em busca dela. retiramos nossa energia emocional do desejo masculina na esperança de que possamos nos mover de forma diferente.

mas o fracasso central do separatismo lésbico foi o quanto ele acreditava que poderia estabelecer uma comunidade pura e autêntica centrada na mulher. á medida que as ações dos indivíduos se tornaram indicativas de uma totalidade essencial, uma verdadeira identidade, as normas passaram a ser investidas de uma seriedade mortal. cada gesto foi classificado de acordo com sua capacidade de ser propriamente "identificada-como-mulher" e uma teologia feminista não dessemelhante ao puritanismo surgiu. assim como os puritanos sentiram que a graça de deus se manifestava através de uma adesão rigorosa e racional à lei, a identificação da mulher tornou-se uma pureza que se expressava através da fala adequada, da práxis adequada e do sexo adequado. a vergonha e o isolamento que engendraram a comunidade lésbica voltaram a ser repugnantes ao se tornar uma ferramenta de afirmação da pureza dos eleitos, ao ser voltada para uma reafirmação deste mundo.

devemos evitar cair nessa armadilha, e por isso devemos sempre ter em mente que o corpo celibatário não é mais puro, nem mais feminista, nem menos explorado. assim como a recusa de comer carne não faz nenhuma diferença para a base material da agricultura industrial, nossas recusas de foder, tanto quantos nossos desejos de foder de maneiras diferentes, não quebram a base material do patriarcado. eles podem gerar uma melhor qualidade de vida ou mais agência para indivíduos ou comunidades, mas esses modelos liberais de "resistência" não oferecem nada no caminho de uma ruptura total. esse é o impasse enfrentado pelo feminismo radical: os gestos proliferam, mas só apontam, jamais, para a abolição do gênero, relaceando olhares tão próximos mas nunca chegando ao momento da verdade.

nossa dor não pode ser reconciliada, pelo menos não apenas por nossos esforços. e ainda assim é irredutível à tristeza, à simples incapacidade de agir, nem à introspecção. ele "é um chamado não apenas para um rolamento atento, mas para um tipo diferente de habitabilidade. é um apelo à ação, uma demanda por políticas coletivas, como uma política baseada não na possibilidade deque possamos nos reconciliar, [...] ou aprender que vivemos com e ao lado uns dos outros, e ainda assim não somos como um só."

o que EU ou qualquer um pode oferecer não é verdade, o caminho para algum momento grandioso, uma final de superação. mover-se sem isso não pode ser um programa, mesmo que às vezes seja estratégico, não pode ser moralmente mandatado, embora certamente envolva ética. prakash kona escreve, "os despossuídos da história não são guiados pelo método, mas pela loucura"; o que nos guará não é um anseio abstrato, mas a necessidade enlouquecedora, material e imediata de algo tão impossível e sobrenatural quanto a libertação. aí está a verdade da trégua de 24 horas de dworkin onde não há estupro; não seus ideais de mente elevada, mas sua absoluta necessidade e absoluta impossibilidade. não tenho certeza de como proceder; minha esperança é que a divulgação desta vida, sua formação através do contato, seu movimento através de livros e histórias, ofereça algum auxílio na vida e nas lutas dos outros.

não deixo ninguém tocar na minha buceta, ou nas minhas tetas. deixo de tocar a dos outros. principalmente eu apenas bato, mordo e arranho e sou atingida, mordida e arranhada, mas nunca com homens. eu fico muito agarradinha com minhas amigas. eu pergunto antes de fazer a maioria das coisas com o corpo dos outros e peço que as pessoas façam o mesmo comigo, ou peço para parar, ou gritar muito com elas, talvez com ameaças de morte. trabalho assalariado é difícil de conseguir e eu sou bonita e jovem, então eu consigo um emprego como uma profissional do sexo com um chefe feminista que me paga muito bem. eu me autodestruo de maneiras menos assustadoras, menos incontroláveis. escrevo ensaios e leio livros, converso com meus amigos e falo o que passa pela minha cabeça o mais alto que posso e tento evitar pessoas que não se importam em ouvir. talvez esteja dando certo porque sei que não sou livre e ainda quero morrer, ainda quero que tudo no mundo seja outra coisa inteiramente, mas posso virar minha miséria para fora e sentir que tenho poder o suficiente para arrastar algo importante comigo. acho que se eu o fizesse ter mais livros e uma cena radical e merda eu estaria mais bêbada e louca e mais anoréxica e talvez eu afundasse tão forçosamente que faria "homem" e "mulher e "transexual" lugares mais assustadores e menos estáveis para se estar. imagino que outras pessoas farão coisas diferentes e dirão coisas diferentes e justificarão suas vidas de maneiras diferentes e não me importo muito. tudo o que quero para eles é destruir algumas coisas e não atrapalhar a destruição de tudo. "destruição" não está muito certo; o patriarcado destrói o suficiente e confundir destruição com comunização é mortal. "descriar", "desfazer", "tornar impossível" este mundo de merda.

pornô queer ainda é um saco porque ainda é pornô e são pedaços de nossos corpos cortados e mercantilizados e é mais um estilo de vida com outra identidade sendo criada por nós e vendida para nós. é uma agitação menos fodida e acho que é divertido assistir às vezes, mas estou farta de ouvir que uma maior representação significa que está tudo bem. não quero ser estigmatizada por trabalhos sexuais ou fazer muito sexo, mas não quero ninguém agindo como se não fosse mais um trabalho, mais exploração que está sempre em um momento do horror, mais capital, mais tristeza e tédio e vidas desperdiçadas em tempo morto.

acabei fazendo parte desse mundo separatista gay e algo nele parece importante. sei lá o que parece. não é a verdade, nem divina, só meia verdade, só mentira, só humana. mas é como uma comunidade, ou algo mais difuso e incapaz de ser fixado nenhum de nós escolhei estar aqui, mas nos encontramos atraídos juntos por essa contradição. amar a deus, odiando tudo o que não é verdadeiro como ele e envolver-se em uma mentira constante e frenética. "é melhor que eu ouça o que não é verdade para você do que nada". afeto lésbico ou ética queer ou algo assim, um pouco juntos e igualmente incertos sobre o que poderíamos fazer. e enquanto nós descobrimos que ficamos loucos, começamos a foder e lagar nossos empregos e nos recusamos a foder ou ter tipos mais estranhos de sexo. ou qualquer coisa, na verdade. eu tento fixá-lo para baixo, mas tudo o que posso fazer é falar em torno dele. essa união dos agorafóbicos, da periferia e do privado tremendo e gemendo enquanto empurramos contra ela.


(a postagem original é acompanhada de uma bibliográfica bem extensa tanto para complementar o que está sendo dito quanto para respaldar o que foi citado ao longo do ensaio, é um texto bem denso e um tanto quanto confuso, algumas passagens tenta-se explicar um ponto de vista para no instante seguinte essa ideia ser virada ao contrário, assim como é pautado muitos assuntos e vivências que, em geral, são bastante estado-unidenses. confesso que foi bem estranho traduzir as últimas partes porque foi como ler, em algum dos parágrafos, que o estupro estaria sendo relativizado, enquanto em outros a crítica era pontual e certeira. enfim, é um ensaio que discute um assunto bem pertinente e interessante quanto as relações de poder em uma sociedade patriarcal e capitalista... o lies journal carrega ensaios na mesma linha, textos poéticos, desabafos, quase tudo! penso que pode ser interessante trazer o coletivo traduzido, mesmo que na metade do processo eu desgoste, não vou parar até que tenha tudo completo. ele conta com dois volumes completos na internet, mas só o primeiro volume foi publicado no site, o segundo está disponível apenas em pdf. espero que a experiência de ler e trazer o lies journal para cá seja boa.)

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